Foto de Alekhine

Às vezes têm-se a impressão de que a vida, de algumas pessoas, converge para uma determinada e suprema tarefa; seria difícil imaginarmos Gandhi sem a a doutrina da não-violência; Chaplin sem Carlitos; Madre Teresa sem a beneficiência. Descendo, consideravelmente, as escalas, pode-se dizer que no mundo do xadrez essa função de vida coube ao campeão russo, Alexandre Alekhine. Desde tenra idade ele fez de seu objetivo de vida tomar o cetro do campeão mundial, o prodígio cubano, Capablanca. Mesmo quando certa vez  lhe lembraram que Capablanca ainda não era o campeão, ele respondeu com altivez: "Mas será e ele é o meu real adversário de sempre!".

Alekhine nasceu em Moscou em 1892, oriundo de família nobre mais desajustada. O pai e a mãe eram alcoólatras. Aprendeu xadrez com sete anos e "cavou" o seu caminho com árduo estudo da teoria do xadrez. Ele uma vez, não sem uma ponta de ressentimento, confessara lamentar não ter a genialidade de Capablanca que aprendera xadrez, sozinho, com a idade de quatro anos. Seu primeiro grande êxito foi no torneio internacional de Moscou, em 1914, onde inesperadamente situou-se em quarto lugar adquirindo o título de Grande Mestre. A primeira guerra mundial e a revolução russa vieram interromper a sua trajetória. Em 1920 ele retorna e ganha o primeiro lugar no I Campeonato Soviético.

Em 1921, cumprira a sua previsão e Capablanca tornou-se campeão mundial vencendo Emanuel Lasker.

Muitas enxadristas quando referem-se a Alekhine, completam com o refrão:"era um grande jogador, mas do ponto de vista moral…", aludindo a um suposto mau-caráter seu. Diz-se que ele usou de um casamento com uma alemã para sair da Rússia e que abandonou a mulher, juntamente com a filha, assim que saiu do território russo. Verdade ou mentira a História costuma ser complacente com a vida particular dos seus escolhidos. Qual a importância de se saber, por exemplo, que Einstein tratava a sua primeira mulher literalmente como escrava proibindo-a, inclusive, de dirigir-lhe a palavra sem a sua permissão? Para a História, a teoria da relatividade e o seu trabalho como humanista são o que contam. Da mesma forma o fato de Alekhine ter procurado refúgio na Alemanha nazista, em plena segunda guerra mundial, não obscurece, para os seus admiradores, o seu extraordinário fulgor como enxadrista, fruto de um um gigantesco trabalho pessoal e persistência em alto grau.

Num de seus artigos ele diz: "durante uma competição,  o indivíduo deve ser uma mescla de ave de rapina e asceta. Ave quando se trata de atacar o seu adversário e asceta quando se trata da conduta própria, do absoluto domínio interior. Não se há de temer a derrota, seja ela na vida ou no xadrez, mas o desânimo que ela pode ocasionar". Com efeito essa era a sua característica principal. Muitas das partidas premiadas por sua beleza, ele jogou no dia seguinte após sofrer uma derrota. "As pessoas hão de acostumarem-se a resolver os seus problemas psicológicos!". Alekhine estimou importante saber descobrir acertos e desacertos no jogo próprio e de seus adversários; com uma autocrítica pouco freqüente ele valorou suas qualidades positivas e negativas e, lembrando o sábio grego Aristóteles, manejou esses recursos limitados, tal qual um general,  com toda a estratégia de guerra!

Esta batalha filosófica ele teve a oportunidade de travar quando em 1927 conseguiu, a custa de muito esforço, o direito de enfrentar o gênio Capablanca em Buenos Aires, Argentina. Escreveu ele: "O primeiro obstáculo enfrentado no meu desafio, foram os periódicos e revistas, escritas por autoridades enxadrísticas, com títulos tão ressonantes como: "Se pode vencer a Capablanca"? "De que modo ganhar-se de um autômato do xadrez"? E assim por diante".

Famosa foto de uma partida entre Alekhine e Capablanca

Necessitava-se tenacidade e audácia para provar opinião própria e combater com ela o parecer dominante dos legisladores enxadristas. Depois de analisar exaustivamente o jogo do seu adversário Capablanca, Alekhine escreveu: "É absurdo qualificar  de "máquina enxadrística" e de "campeão de todos os tempos" a um jogador em cuja genialidade se descobrem dois ou três descuidos, por não dizer erros evidentes, que comprometem a posição se o adversário responde adequadamente. É preciso separar o jogador do mito".

Quando o duelo finalmente começou só dois jogadores de renome previram a vitória de Alekhine: o ex-campeão Lasker e Réti. Dessa forma a primeira vitória de Alekhine no match ressoou como uma bomba. O russo havia jogado com precisão e desbaratado as tentativas de seu adversário de conseguir o empate. Capablanca pede um dia de descanso e volta empatando a segunda partida e ganhando a terceira. Ganha a sétima partida e quase ganha a nona. Nesse ponto os jornais vaticinam o término próximo do match.

Na décima primeira e segunda partida, recebe de pronto dois terríveis contragolpes. Provando a sua marca psicológica, após uma derrota, Alekhine joga duas partidas magistrais, para alguns comentaristas, esplêndidas! O trono do rei se pôs nervoso e ele propõe a Alekhine  suspender o encontro e reiniciar no ano seguinte, porém este não concorda com tal proposta. Uma nova vitória de Alekhine na vigésima primeira partida e o match chega a 4 x2. Apenas duas vitórias lhe separam do título. Na vigésima sétima partida, Capablanca comete um erro primário e empata uma partida ganha. Vitória na vigésima nona e o match chega a 4 x3. Vitória de Alekhine na trigésima segunda e trigésima quarta partida, terminando o match.

O novo campeão tratou, então, de jamais conceder uma revanche a Capablanca e de todos os confrontos, em torneios, posteriores a esse match, terminaram com a vitória de Capablanca e eles não se falaram mais.

No início da década de 30, o campeão deixou, temporariamente o xadrez, para validar o seu doutorado em direito, em Paris, obtido na universidade de St Petersburgo. Falava fluentemente seis idiomas e nesse instante de glória, de fama enxadrística e intelectual, o destino tramou-lhe novas variantes que desaguaram em sofrimento e dor, em miséria e morte.            

4 comentários para “Alekhine (parte 1)”
  1. POWWWWWWW
    belo texto!
    Alekhine foi GRANDE como enxadrista!

  2. jean monteiro diz:

    Alekhine foi e será uma das mentes mais celébres do Xadrez!

  3. Que Richard Réti apostava em Alekhine, tudo bem. Já Lasker… tenho minhas dúvidas. Vocês poderiam tirá-las?
    Mui grato.

  4. alexander alekhine foi(é e sempre será ) o maior enxadrista de todos os tempos…atualmente…com as estupendas “facilidades” da informática naum surgiu nenhum jogador que supere a alekhine…depois do genial franco-russo podemos citar alguns nomes como: robert ‘bobby’ fischer…garry kaspárov…mikhail botvinnik…anatoly kárpov…judith polgar…wilhellm steinitz…akiba rubinstein…savielly tartakower …e o norueguês magnus carlsen…claro q qualquer pessoa pode criar a sua própria “lista” de grandes enxadristas através da história desse maravilhoso jogo em forma de arte e de ciência!

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