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	<title>Clube Conquistense de Xadrez&#187; Armínio Santos</title>
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	<description>Xadrez de Vitória da Conquista e Região</description>
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		<title>Quando o futebol se rendeu aos princípios do xadrez</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Jul 2010 23:52:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armínio Santos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A copa do mundo de 2010 foi um momento revolucionário nesta modalidade esportiva, pelo menos para algumas poucas seleções que aplicaram não se sabe se propositalmente, os princípios do jogo de xadrez em campo. Desde já, pode-se dizer que assim como o xadrez romântico de Morphy, Anderssen e Blackburne sucumbiu aos princípios fundamentais do jogo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/xadrez-futebol.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-818" title="xadrez-futebol" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/xadrez-futebol-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>A copa do mundo de 2010 foi um  momento revolucionário nesta modalidade esportiva, pelo menos para algumas  poucas seleções que aplicaram não se sabe se propositalmente, os princípios do  jogo de xadrez em campo. Desde já, pode-se dizer que assim como o xadrez  romântico de Morphy, Anderssen e Blackburne sucumbiu aos princípios  fundamentais do jogo, descobertos em parte por Steinitz, na copa da África do  Sul, o futebol se despediu do romantismo dos artistas do passado em detrimento  do planejamento  estratégico-tático. Os  craques continuaram a ter o seu papel fundamental com uma diferença: criando os  seus  movimentos dentro de uma estratégia  e  tática apurada, retirada basicamente  do xadrez e refletida longamente antes das partidas e sem nenhuma concessão à  improvisos fora do plano  estratégico.Assim  ocorreu com a seleção da Espanha, com mais intensidade com a Holanda e  principalmente com a seleção da Alemanha. Um exemplo que poderia ser retirado  não só das partidas de Steinitz,mas principalmente das partidas de Lasker,  ocorreu na partida Brasil versus Holanda. Nesta partida os dois craques  holandeses juntaram forças contra Michel Bastos, ao observarem que Robinho não  retornava para ajudar este lateral. O técnico brasileiro ou não percebeu ou  demorou bastante para notar esta fina adequação tática dentro do plano  estratégico holandês.<span id="more-816"></span></p>
<p>No passado os românticos não  entenderam os fundamentos elaborados por Steinitz, demonstrados em Nova Iorque,  janeiro de 1883, no match histórico, contra   Zukertort. Neste match Zukertort não foi capaz de resolver a forma como  Steinitz parecia advinhar-lhe as combinações. Tentou a solução para este  intrincante problema por quatro anos sem jamais chegar próximo de uma solução  e, mais grave, perdendo neste processo a sua grande maestria de excelente  jogador prático.Nem mesmo o mais brilhante jogador da escola romântica, o russo  Tschigorin pode obter sucesso contra os novos e revolucionários princípios. Assim  também Steinitz e muitos de seus seguidores, do que poderia se chamar de”escola  dogmática”, do qual Siegbert Tarrasch é um ícone, tal como Zukertort, não  conseguiram entender o refinamento do seus próprios sistemas  por Emannuel Lasker, conforme se pode ver na maravilhosa  sétima partida do match Stenitz versus Lasker, de1894. <a href="http://www.ccx.org.br/games/lasker_steinitz_7.htm">Stenitz versus Lasker.</a></p>
<p>Em 2010 Brasil e Argentina  perderam, respectivamente, para as seleções da Holanda e da Alemanha, sem  entenderem muito bem as razões da derrota, assim como Stenitz, apesar do seu  gênio não entendeu  que ocorrera na  sétima e inflexiva partida do seu match contra Lasker, uma revolução dos  princípios do xadrez. Eu diria que o Brasil perdeu principalmente por um plano  estratégico pobre recheado de dogmatismo, expresso pelo elogio do técnico à  marcação perfeita e ao posicionamento rígido. Este foi o plano estratégico do  Brasil. O Brasil perdeu porque não compreendeu que o futebol estava  evolucionando diante dos seus próprios olhos! Acrescente-se ainda um item:  ufanismo injustificável no qual como poderia muito bem dizer Emannuel Lasker,não  consegue resistir ao xeque-mate. Entendia-se, portanto, que os jogadores  excepcionais como Luís Fabiano, alcunhado de “o fabuloso”,Kaká e o quase  sucessor de Pelé, Robinho, resguardado pela “melhor defesa do mundo” e  defendido pelo “maior goleiro do planeta”,fariam o resto.</p>
<p>Quanto à Argentina, nem mesmo plano estratégico houve. Usou-se  uma entidade abstrata que pode ser entendida como”mística”,”camisa argentina”,  cheia de evocações a glórias do passado. Contra seleções inferiores estas  intrínsecas fragilidades passaram desapercebidas para receberem em cheio a luz  do sol contra as seleções da Holanda e Alemanha. O Brasil perdeu porque não  pode se readaptar  e responder em tempo  real as mudanças táticas, dentro do plano estratégico enxadrístico da seleção  holandesa.  Quem possivelmente viu o que  estava acontecendo e tentou um plano inteligente para contrapor a nova  realidade foi o técnico da seleção paraguaia, o argentino Geraldo Martins, que  planeou neutralizar a seleção espanhola com forte marcação na defesa adversária,  diminuindo os seus espaços. O plano falhou diante da qualidade insuficiente do  seu ataque necessário para manter durante todo o jogo este plano ativo e também  do preparo físico necessário  para  realizar este objetivo.</p>
<p>No xadrez, estratégia responde a  pergunta: O que fazer? E a tática responde a pergunta: como fazer? Em 1871,  Steinitz escreveu diante dos seus fracassos em torneios anteriores, fazendo uma  das mais notáveis autocríticas enxadrísticas: &#8220;En los  torneos de París (1867) y Baden-Baden (1870)  yo esperaba conquistar el primer puesto&#8221;, recordaría mas tarde el primer campeón  del  mundo. <em>&#8220;Al </em>no  conseguirlo, me vi obligado a pensar acerca de mis actuaciones, y llegué a la  conclusión de que el juego combinativo, aunque a veces produce excelentes  resultados, no puede garantizar el éxito. Tras un meticuloso estudio de este tipo  de juego (incluidas, sin duda, las partidasde su match con Anderssen: G. K.), descubrí buen número de  defectos. Muchos sacrificios tentadores que tuvieron éxito resultaron ser  incorrectos. Adquirí, por tanto, la convicción de que una defensa correcta  requiere un gasto de energia mucho menor que el ataque. En general, un ataque  solo  tiene posibilidades de éxito cuando la posición enemiga se encuentra  yadebilitada. Desde entonces, mi  pensamiento se ha orientado a buscar una forma sencilla y segura de debilitar  la posición contraria”. “Um passo revolucionário na compreensão do xadrez.</p>
<p>Os planos estratégicos das seleções  alemãs e holandesas, consistiram em linhas gerais num futebol mais pausado, de  menor voltagem(El Pais), baseado em jogadores de nível técnico alto,com bom  preparo físico, estaturas altas, e capazes de identificarem rapidamente os  erros estratégicos e táticos do adversário e tal como no jogo de xadrez,jogar  em cima das debilidades identificadas. O que se viu em linhas gerais foram  domínio de espaço, controle do centro, calma e excelência na defesa e jogo de  contra-ataque relâmpago baseado nas debilidades adversárias. Assim ocorreu com  a Holanda contra o Brasil e com a Alemanha contra a Argentina. Não foi por  acaso que os craques solitários, jogando no estilo romântico e capazes de  decidirem uma partida, baseado principalmente numa linhagem de jogadores  sul-americanos que remonta a Garrincha, Pelé, Tostão, Maradona e Romário, fracassaram  na copa de 2010 contra os inteligentes esquemas estratégicos das duas seleções(mais  a Espanha), enquanto os craques que obtiveram sucesso conseguiram  porque as   suas seleções optaram  por jogar  xadrez em campo de acordo com os princípios estratégicos combinados de Stenitz  e  Emannuel Lasker. O leitor poderá lembrar-se  das inserções televisivas na qual a esperança de alteração do resultado  desfavorável da partida se baseava, para o narrador, no desequilíbrio promovido  por craques como Kaká, “Luís Fabuloso”,Robinho, Cristiano Ronaldo e Messi. Isto  no entanto, não ocorreu porque o futebol das vitoriosas equipes citadas  promoveu uma ruptura de escolas,uma revolução! Cenários fascinantes poderão doravante  se abrirem para o futebol com as suas 22 peças. Entender o futebol passará  obrigatoriamente por compreender os princípios estratégicos-táticos do xadrez. Quando  se fizer as necessárias análises desta copa de 2010, um outro  futebol, bem mais rico e sofisticado,  emergirá!</p>
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		<title>Ser ou não ser?</title>
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		<pubDate>Wed, 26 May 2010 13:20:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armínio Santos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O filme &#8220;As Filhas de Marvin&#8221; com Meryl Streep e Diane Keaton coloca um problema interessante para o espectador: o que é, na verdade, desperdiçar a vida? O personagem de Diane Keaton arquiva os seus sonhos e projetos de vida para cuidar do pai, inválido numa cama e, paulatinamente, gasta a sua beleza a medida [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/hamlet-yorik.gif"><img class="alignleft size-medium wp-image-660" title="Hamlet" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/hamlet-yorik-300x155.gif" alt="Ser ou não ser" width="300" height="155" /></a></p>
<p>O filme  &#8220;As Filhas de Marvin&#8221; com Meryl Streep e Diane Keaton coloca um  problema interessante para o espectador: o que é, na verdade, desperdiçar a  vida? O personagem de Diane Keaton arquiva os seus sonhos e projetos de vida  para cuidar do pai, inválido numa cama e, paulatinamente, gasta a sua beleza a  medida que &#8220;sacrifica-se&#8221; pelo genitor. Como é filme e não vida real,  o espectador termina sendo ofuscado pelo brilho interior da personagem.</p>
<p><span id="more-650"></span></p>
<p>Num outro  extremo, o livro <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fausto" target="_blank">Fausto</a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Wolfgang_von_Goethe" target="_blank">Goethe</a>, também coloca um problema parecido de  natureza diferente: não seria jogar a vida fora, trocar a alma pelos prazeres  do mundo? O personagem do livro, mediante um   acordo com Mefistófeles, vende a sua alma em troca das benesses do  mundo. Diuturnamente, a televisão está nos mostrando esse tipo de personagem  &#8220;bem sucedido&#8221; e que não hesita em passar por cima de pessoas ou  instituições, no desejo  doentio de  aumentar sempre o seu  poder, riqueza e  &#8220;glória&#8221;.</p>
<p>A diferença  nos dois exemplos citados pode residir que, no primeiro, a personagem do  filme,embora possa parecer fracassada é, na realidade, vencedora. O segundo  exemplo mostra o contrário.</p>
<p>Diversas  opções de vida com as suas, muitas vezes, trágicas conseqüências podem ser  encontradas no mundo do xadrez.</p>
<p>Certamente,  o americano <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Morphy" target="_blank">Paul Morphy</a>, tido como um dos maiores gênios do jogo não poderia  imaginar que a sua opção pelo xadrez seria a sua ruína. Após percorrer a Europa  durante os anos de 1858-60, vencendo todos os campeões europeus e cobrindo-se  de glória diante de seus compatriotas, foi repelido pela sua noiva, sob a  alegação que não poderia casar-se com um jogador profissional de xadrez; devido  a essa recusa, Morphy entrou em profunda depressão, morrendo poucos anos  depois, perturbado mentalmente. Um contemporâneo de Morphy escreveu sobre ele o  seguinte comentário: &#8220;que coisa estranha é a natureza do ser humano, que  faz com que um jogador de xadrez, que deveria privilegiar a razão ao invés da  emoção, sucumba diante da recusa de uma mulher esnobe, afetada e insensível e  que refletia o seu conceito de vida, apenas, através dos ecos da sociedade  preconceituosa de Nova Orleans. Como é grande o poder da mulher sobre o  homem!&#8221;.</p>
<p>Para Wilhelm Steinitz, campeão mundial em 1883,   a opção pelo xadrez   como meio de vida, foi também a da morte pela fome, em 1900 na ilha de  Ward. Primeiro ele conheceu  a fama e  depois, vítima da efemeridade da glória, teve que lutar, precariamente, pela  sobrevivência, após perder o seu título para Emanuel Lasker, em 1894. Em 1898,  quando participava de um torneio, um   admirador admoestou-lhe, falando que ele já adquirira muita glória podendo  descansar e deixá-la para os jogadores mais jovens; &#8220;a glória eu posso  deixar, mas o dinheiro do prêmio não!&#8221;- foi a resposta.</p>
<p><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Schlechter" target="_blank">Carl Scheletcher</a>, o maior jogador alemão do  século XX, trocou a vida &#8220;monótona&#8221; de pequeno sitiante, no interior  da Alemanha, pela busca da fama em Berlim. Quase a obteve; depois de conseguir o  direito de desafiar o campeão mundial, Emanuel Lasker, numa série de dez  partidas. No último jogo, o empate lhe daria o título e ele claramente superior  recusou, por arrogância, a linha de empate e terminou perdendo a partida.  Como conseqüência dessa derrota, Scheletcher  não conseguiu reagir e, bem depois, viu-se em estado de mendicância sendo  forçado a alistar-se como soldado, na primeira guerra mundial, onde foi morto  no primeiro combate.</p>
<p>Para o russo  Alexander Alekhine, campeão mundial entre 1927 e 1946, a opção foi negociar  a alma com os nazistas. Abrigado em Berlim nos anos de 1939-44, escreveu vários  artigos antisemitas onde, repulsivamente, dizia que os judeus não eram talhados  para o xadrez; percebendo depois que caso continuasse a derrotar os oficiais  nazistas, em torneios, correria perigo de vida, abdicou de sua arte,  deixando-os prevalecer sobre o seu jogo. Em 1944, completamente humilhado pelos  seus anfitriões, foi-lhe, finalmente, permitida a sua saída da Alemanha,  apenas, com uma mala de roupas.</p>
<p>É possível  que a verdadeira opção de vida que faça, realmente, diferença seja a opção  ética; com as  restantes  talvez seja mais sensato calar-nos e como no  poema de Raimundo Correa, <strong>Mal Secreto</strong>, convir que:</p>
<blockquote><p><em>Se a cólera  que espuma, a dor que mora<br />
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,<br />
Tudo que punge, tudo que devora<br />
O coração, no rosto se estampasse;</em></p>
<p><em>Se se pudesse, o espírito que chora,<br />
Ver através da máscara da face;<br />
Quanta gente, talvez, que inveja agora<br />
Nos causa, então piedade nos causasse!</em></p>
<p><em>Quanta gente que ri, talvez, consigo<br />
Guarda um atroz, recôndito inimigo,<br />
Como invisível chaga cancerosa!</em></p>
<p><em>Quanta gente que ri, talvez existe,<br />
Cuja ventura única consiste<br />
Em parecer aos outros venturosa! </em></p></blockquote>
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		<title>O peso da decisão</title>
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		<pubDate>Wed, 05 May 2010 11:52:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armínio Santos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Dentre as supostas virtudes que o jogo de xadrez propicia ao enxadrista, destaca-se o estímulo à decisão. A cada lance, o jogador é obrigado a fazer as escolhas e  arcar com o ônus dessas. Supõe-se que nenhuma obrigação é mais penosa ao espírito do ser humano do que o ato de decidir, pois envolve, não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/duvida2.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-663" title="Dúvida" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/duvida2-287x300.jpg" alt="" width="222" height="232" /></a></p>
<p>Dentre as  supostas virtudes que o jogo de xadrez propicia ao enxadrista, destaca-se o  estímulo à decisão. A cada lance, o jogador é obrigado a fazer as escolhas  e  arcar com o ônus dessas. Supõe-se que  nenhuma obrigação é mais penosa ao espírito do ser humano do que o ato de  decidir, pois envolve, não raras vezes, conseqüências muitas das quais  desastrosas. A história está repleta de exemplos, não só do que pode causar a  decisão errada, como também o efeito do seu oposto: a indecisão.</p>
<p><span id="more-662"></span></p>
<p>A dinastia  chinesa dos <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Dinastia_Sung" target="_blank">Sung</a> findou-se porque o  chefe supremo dos exércitos chineses, quando recebeu a notícia de que a capital  estava cercada pelos mongóis, encontrava-se de bruços a olhar um combate de  grilos e não foi capaz de afastar-se deles, sem antes saber qual seria o  vencedor. Caiu a capital e assim terminou o império dos Sung.</p>
<p>A conhecida  fábula do &#8220;Asno de Burundin&#8221;, conecta-se com a história chinesa, pois  aquele, depois de atravessar um deserto e deparar-se com um monte de feno de um  lado e água límpida em abundância, do outro, não foi capaz de decidir-se  primeiro pela água ou pelo feno, vindo a morrer de fome e de sede.<br />
Por outro  lado, decisões dramáticas são muitas vezes impostas. No livro de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Styron" target="_blank">William  Styron</a>, A Escolha de Sofia, a personagem Sofia tem de escolher, num campo de  extermínio nazista, salvar o seu filho ou a sua filha da morte, condição  imposta pelo carrasco do campo. A indecisão aí, acarretaria a morte de ambos os  filhos.</p>
<p>No xadrez,  vida e títulos obedeceram, não raras vezes, aos caprichos de uma decisão  errônea ou indecisão.</p>
<p>Na décima e última partida pelo título  mundial de xadrez de 1910, o desafiante <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Schlechter" target="_blank">Schelechter</a> jogando com o campeão  mundial, Emanuel Lasker, precisaria apenas de um simples empate para tomar o  cetro do campeão; a partida lhe era favorável e, como ele confessou muito  depois, a linha de empate fora visualizada por ele com toda a segurança. Ao invés,  entretanto, de empatar e passar a história como campeão mundial, preferiu  decidir-se por outra variante complicada e cheia de perigos ocultos que acabou lhe sendo fatal. Por que  enveredara por essa escolha? A sua explicação foi singela: &#8220;uma mulher da  platéia, muito bonita, olhava o jogo com interesse, parecendo entender bem a  partida. Para não decepcioná-la com um empate, resolvi escolher a outra  variante&#8221;. Alguém lembrou-lhe que aquele &#8220;simples empate&#8221;o  tornaria campeão mundial. Ao conhecer a fome e a mendicidade muitos anos  depois, Schelechter, talvez tivesse se lembrado de que a sua decisão  irresponsável, e mais nada,  fora a causa  da sua derrocada.</p>
<p>Como tomar,  porém, a melhor decisão, nas diversas circunstâncias de vida? Ao que se  sabe  hoje, o uso de elementos intuitivos  é de vital importância, assim como uma grande consciência da responsabilidade  decisória. Imagine o leitor, por um momento, que ele seja um dos  missionários referidos abaixo. Suponhamos que  o seguinte problema lhe seja apresentado agora: é preciso transportar,  atravessando um rio, três missionários e três canibais, fazendo-se várias  viagens num barco de capacidade para apenas duas pessoas. Todavia, o número de  canibais, em terra, jamais deve ser maior do que o dos missionários(por motivos  óbvios). Como decidir, corretamente, esse transporte?</p>
<p>Decisões e  erros, porém, andam juntos e ao final das contas, talvez, não exista outra  decisão mais conveniente do que a reflexão dos versos de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Shakespeare" target="_blank">Shakespeare</a> que fala  sobre a nossa condição humana de decidir:</p>
<blockquote><p><em>Não te doa jamais em pensar em falha tua.</em><br />
<em>Na rosa espinhos há,</em><br />
<em>turva-se a fonte clara;</em><br />
<em>vela a nuvem e o eclipse a luz do do sol, da lua,</em><br />
<em>E o ascoso pulgão vive até na flor mais rara. Todo homem erra sempre”.</em></p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>Boris Spassky</title>
		<link>http://www.ccx.org.br/boris-spassky/</link>
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		<pubDate>Mon, 09 Jun 2008 17:29:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armínio Santos</dc:creator>
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		<category><![CDATA[GM]]></category>
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		<description><![CDATA[por Armínio Santos Quando pensamos em Spassky, inevitavelmente o associamos às suas derrotas para Fischer. No entanto, tendemos a esquecer o enxadrista singular, o direcionamento luminoso em posições complexas e o fato de que não se podia determinar exatamente um único estilo de seu jogo. Acrescente-se a isto uma calma impertubável e irritante para os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>por Armínio Santos</em></p>
<p><img src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/spassky_inicial.jpg" alt="" width="240" height="229" /></p>
<p>Quando pensamos em Spassky, inevitavelmente o associamos  às suas derrotas para Fischer. No entanto, tendemos a esquecer o enxadrista  singular, o  direcionamento luminoso em  posições complexas e o fato de que não se podia determinar exatamente um único  estilo de seu jogo. Acrescente-se a isto uma calma impertubável e irritante para  os seus adversários. Spassky, de acordo com Kasparov, poderia ter o seu xadrez  classificado como universal, entendendo-se isto como a capacidade de jogar bem  os variados tipos de posições. O seu resultado contra Kasparov é sugestivo. Ver  partidas:<span id="more-292"></span></p>
<ul style=" list-style-type:decimal">
<li><a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1069970">Kasparov vs Spassky</a> 0-1,  1981 Tilburg (<a href="http://www.chessgames.com/perl/chessopening?eco=A56">A56</a> Benoni  Defense)</li>
<li><a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1069987">Spassky vs Kasparov</a> ½-½,  1982 Bugojno (<a href="http://www.chessgames.com/perl/chessopening?eco=B23">B23</a> Sicilian,  Closed)</li>
<li><a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1070070">Kasparov vs Spassky</a> 0-1,  1983 Niksic (<a href="http://www.chessgames.com/perl/chessopening?eco=E80">E80</a> King&#8217;s  Indian, Samisch Variation)</li>
<li><a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1070196">Kasparov vs Spassky</a> ½-½,1986 Dubai (<a href="http://www.chessgames.com/perl/chessopening?eco=E21">E21</a> Nimzo-Indian, Three Knights)</li>
<li><a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1070308">Spassky vs Kasparov</a> ½-½, 1988 Belfort (<a href="http://www.chessgames.com/perl/chessopening?eco=A49">A49</a> King&#8217;s  Indian, Fianchetto without c4)</li>
<li><a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1070369">Spassky vs Kasparov</a> ½-½, 1988 Reykjavik (<a href="http://www.chessgames.com/perl/chessopening?eco=B23">B23</a> Sicilian,  Closed)</li>
<li><a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1070419">Kasparov vs Spassky</a> 1-0,  1989 Barcelona (<a href="http://www.chessgames.com/perl/chessopening?eco=D35">D35</a> Queen&#8217;s  Gambit Declined)</li>
<li><a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1070506">Kasparov vs Spassky</a> 1-0,  1990 Linares (<a href="http://www.chessgames.com/perl/chessopening?eco=E34">E34</a> Nimzo-Indian, Classical, Noa Variation).</li>
</ul>
<p>Kasparov conseguiu ganhar apenas em 1989  em Barcelona e 1990 em Linares quando Spassky já estava francamente em declínio. Em 2006,  ele pode ainda <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1414791" target="_blank">bater Karpov</a> . Kasparov  faz o seguinte comentário sobre o seu primeiro encontro com Spassky: “O meu  primeiro encontro com Spassky foi em 1981 na cidade holandesa de Tilburg. Era o  meu primeiro supertorneio: uma prova de fogo! Todos os mestres destacados  estavam ali, a exceção de Karpov e Korchnoi e também Tal e Polugayévski que  ajudavam Karpov no match de Merano. Eu julgava que Boris Vasielevitch estava  tremendamente assustado. No entanto tudo terminou mal. A minha <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1069970" target="_blank">derrota contra Spassky</a> foi penosa(!)”.</p>
<p>A partida seguiu na Defesa Índia do Rey, variante  Averbach, e após 1-d4 –Cf6; 2-c4-c5; 3-d5-g6; 4-Cc3-d6; 5-e4-Bg7; 6-Be2-0-0; 7 Bg5  chegou-se a posição do diagrama abaixo:</p>
<p><img style="float:none" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/kasparov_spassky1.gif" border="0" alt="" width="313" height="304" /></p>
<p>Nesta  posição seguem-se os comentários de Kasparov: “Spassky pensou e logo decidiu  sacrificar um peão, no espírito do gambito Benko, esperando apoderar-se da  iniciativa e obrigar as brancas a defender-se com precisão e obrigar-me a um  jogo que poderia resultar-me desagradável”.</p>
<p>7-&#8230;b5;  8-cxb5- a6; 9- a4!- Da5?! Teria sido melhor jogar 9-&#8230;h6! 10-Bd2-CbD7?;  As negras simplesmente quedam-se numa versão inferior do gambito Benko. 11-Ta3!  Agora a atividade das negras se estanca.  11-&#8230;Bb7;12-Cf3-axb5; 13-BxB5-Dc7; 14-0-0. A posição das brancas está tecnicamente  ganha, pois tem um peão de vantagem, sem nenhum contra-jogo de seu  oponente.Assim a aventura de Spassiky há fracassado. No entanto, ele seguiu  jogando como se nada houvera passado, com uma aparência imperturbável o que me  fazia roer por dentro!</p>
<p>14-&#8230;Cg4; 15-Bg5</p>
<blockquote><p><em>&quot;El  Ajedrez, con toda su profundidad filosófica, es ante todo un juego en el que se  ponen de manifiesto la imaginación, el carácter y la voluntad&quot;.</em> Boris Spassky</p></blockquote>
<p><img style="float:none" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/kasparov_spassky2.gif" border="0" alt="" width="310" height="312" /></p>
<p>15-&#8230;Cgf6;  uma decisão pragmática por parte de meu  experiente oponente!</p>
<p>As  negras devem controlar o seu terreno , ser pacientes e esperar.</p>
<p>16-Cd2-e6;17-Cc4-exd5;18-exd5-Tad8;  19-a5; um plano evidente para materializar a posição, embora hoje em dia não  consigo explicar como pude perder esta posição! 19-&#8230;h6; 20-Bh4; é possível  que <strong>Bf4!?</strong> fosse  melhor.20-&#8230;Ce5; 21-a6-Ba8; 22-Te1-g5; 23-Bg3-Cfd7! Abrindo passo para o peão f.  24-a7!-f5; 25-Bxe5-Cxe5; 26-Cxe5 –dxe5! A única forma. Depois de <strong>26-&#8230;Bxe5;  27-Dh5-Rg7; 28-Ta6-Bxc3; 29-Bxc3-Bxd5; 30-c4-Bf7; 31-Df3-Ta8; 32-Tea1</strong> . As  brancas teriam ganho sem o menor problema. Agora o peão de a7 deveria decidir a  luta, porém ao menos está bloqueado e as negras tem a esperança de explorar a  força do seu bispo de casas negras. 27-Ta6-e4; 28-Bc4(o computador sugere <strong>28-d6!?)</strong> &#8211; Df7; 29-Cb5-Rh7; 30-Te6. A  situação está cristalizada e eu comecei a jogar com muita determinação: o  cavalo protege o peão de a7 e a torre penetrou no campo contrário. Chegou,  portanto, a fase concludente e Spassky se encontrava em sérios apuros de  tempo&#8230; 30-&#8230;Db7;</p>
<p><img style="float:none" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/kasparov_spassky3.gif" border="0" alt="" width="309" height="315" /></p>
<p>31-Dh5?!  A primeira jogada que merece uma severa crítica. Eu deveria simplesmente atacar  o peão com <strong>31-f3!</strong> E a partida teria  sido concluída rapidamente. 31-&#8230;Tf6;32-Txf6-Bxf6;33-g4?f4! Uma réplica instantânea!  As negras conseguem pela primeira vez possibilidades de contra-jogo. 34-  h4!?Rg7? Spassky faz o lance com o ponteiro a ponto de cair!35-Cc3? Este lance  deixa escapar uma nova vitória com <strong>35-d6!-  e3; 36-f3!</strong></p>
<p><img style="float:none" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/kasparov_spassky4.gif" border="0" alt="" width="307" height="303" /></p>
<p>35-&#8230;e3;36-Bd3-exf2+;37-Rxf2-Dxb2+;38-Te2?Um  grave erro, agora com o apuro de meu tempo.38-&#8230;Dxc3; 39-Dg6+ -Df8; 40-Dxh6+ &#8211;  Bg7; 41-Dxg5!-Df6?; <strong>41&#8230; Dd4+!</strong> Spassky ganharia de imediato! Neste ponto a partida foi adiada e reiniciou no  mesmo dia com um drástico câmbio de cenário: em lugar de ganhar eu estava  lutando agora por um empate e isto exerceu em mim um efeito desmoralizador.</p>
<p>42-Dxf6+  Bxf6; 43-Bc4-Bxh4+; 44-Rf3-Td7; 45-Ta2? Outro erro e desta vez irreparável.  45-&#8230;Bg5; agora as brancas não podem jogar g4-g5 e a sua posição está perdida.  46-Re4-Tf7; 47-Ta5-Rg7! 48-Txc5 –Rf6?! 49-Tc8—Txa7; 50-Tf8+Rg7; 51-Tc8-Rf6? Novo  apuro de tempo. 52-Tf8 + Rg7; 53-Tc8-Bb7+! 54-Tc7+ Rf6; 55-Rd4-Bh4! 56-d6-Bf2+ 57-Rc3-Be4! 58-Te7-Txe7; 59-g5+Rg6; 60-dxe7-Bc6; 61-Rb4-Bb6; 62-Bb3-Bd7;  Evitando a última armadilha: <strong>62-&#8230;f3?</strong> 63-Bd5-Be8; 64-Bc4-f3; 65-Bd3+Rxg5; 66-Bb5-f2. As brancas se rendem.</p>
<p>A  forma empreendedora e tranqüila que Spassky lutou numa posição desesperada me  produziu uma profunda impressão. Apesar de alguns erros no apuro do tempo, explorou  de forma esplêndida as possibilidades táticas da posição, captando sutilmente  os matizes psicológicos da luta. Me superou por completo no plano psicológico! Numa  posição tão desfavorável outro jogador simplesmente haveria se desmoralizado,  porém Spassky lutou duramente dizendo a si mesmo:”és jovem e temperamental.  Isso tem que aparecer em algum momento”! E foi justamente isto que ocorreu.</p>
<p>Spassky, nasceu em Leningrado, em 30 de janeiro de  1937 numa época sombria, pré-segunda guerra mundial. Fora conhecido como garoto  prodígio no início de sua adolescência e a Federação Soviética de Xadrez, numa  notável exceção, selecionou-o para um torneio internacional no exterior antes  de ter jogado a final do Campeonato Nacional. A sua estréia internacional  ocorreu em grande estilo, <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1125697" target="_blank">derrotando Smyslov</a> em histórica partida, em  Bucareste, 1953, no qual  obteve o título  de mestre internacional.</p>
<p><img src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/spassky_infancia.gif" border="0" alt="" width="240" height="351" /></p>
<p>Desde a infância teve uma inclinação pelo jogo agudo e  de ataque e possuía um magnífico instinto pelo desenvolvimento da iniciativa. Estes  hábitos, de acordo com Kasparov, foram cultivados pelo seu primeiro treinador, Zak  e desenvolvidos e consolidados depois pelo lendário Tolusch. A debilidade pelos  ataques brilhantes podem ser detectados em toda a carreira de Spassky. Ele  gostava de um centro forte e móvel e um desenvolvimento livre de peças. Por  outro lado, aprendeu num nível genético a manobrar de forma sutil e a jogar bem  em posições inferiores. Por último alcançou maestria na fase final do jogo. Com  o tempo jogava todas as fases do jogo igualmente e segundo Kasparov com  exagerada indiferença: se é um ataque é um ataque, se é um final é um final! Porém,  na menor oportunidade ele era capaz de mostrar a sua inata habilidade para  abrir caminho em posições complexas, ricas em táticas e carentes de diretrizes.  De forma que as raízes enxadrísticas de Spassky estão próximas a Tschigorin,  Alekhine e Tal do que a Botivinik e Petrossian. É possível que isto explique  porque nos seus melhores anos nem Tal e nem Korchnoi conseguiam jogar contra  ele. Seguramente porque os seus jogos, sobretudo o de Tal podia ser lido por  Spassky como um livro aberto. Kasparov.</p>
<blockquote><p><em>Estou seguro que o  xadrez tem um esplêndido futuro porque é uma  luta eterna. Há chegado a era da informática que a tudo influi: análises,  informações, preparação. Agora se requer um talento distinto: a capacidade para  sintetizar idéias. No momento o homem segue a frente das máquinas”. Spassky.</em></p></blockquote>
<p>Spassky era o único jogador de primeira linha da sua  geração a jogar gambitos sem medo (uma arma empregada por Bronstein com  sucesso). Kasparov acredita que Spassky era ainda mais eficiente nos gambitos  do que Bronstein. Esta inclinação pelos gambitos acompanhou toda a sua carreira  e seus resultados são verdadeiramente assombrosos. Durante 30 anos não perdeu  uma única partida no Gambito do Rei jogando contra jogadores como Fischer,  Bronstein, Averbach e Seirawan. Ele jogava os gambitos, no entanto, diferente  de todos os românticos do passado. O seu objetivo era conseguir um centro móvel  com boa mobilidade de peças. Muitas das suas vitórias posicionais nos gambitos  ocorreram sem nenhum ataque ao rei e sim devido às debilidades causadas na  posição inimiga. Nunca jogou 1-Cf3 na abertura. Ele foi o primeiro dos grandes  jogadores que empregou 1-d4 e 1-e4 com igual êxito. Pode-se dizer que muitas  das suas posições de aberturas davam ensejo a que os seus adversários  plantassem difíceis problemas como ocorreu na famosa <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1080046" target="_blank">partida contra Fischer</a> , no  Gambito do Rei(!), em   Mar Del Plata, 1960. No  27˚ Campeonato da URSS, em Lenigrado, 1960, ele afrontou, como fizera com  Fischer em Mar Del Plata,  ninguém menos do que David Bronstein: 1-e4  –e5; 2-f4!! Ao comentar depois esta partida no seu livro clássico: 200 Partidas  Abertas, Bronstein se lamentava: “Que diablos me habria empujado a mi a  responder 1-&#8230;e5?  Havia esquecido que a  Spassky, como Spielmann, no passado lhe gostava muito jogar o Gambito do Rey”.  Ainda em suas reflexões, Bronstein anotara preocupado, depois de 2-f4: “Y si a  mi oponente se le ocurriese crear hoy uma obra maestra”? Foi isto precisamente  o que se sucedeu! <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1034110">Esta partida</a> foi considerada a mais brilhante do torneio.  Não seria exagero dizer que Spassky jogava o Gambito do Rey melhor do que toda  a soma de jogadores do passado, incluindo Anderseen, Kisserkitz, Blackburne e o  próprio Steinitz.</p>
<p>O gosto de Spassky por posições agudas e de ataque,  veio sem dúvida do seu primeiro treinador, entre 1952 e 1960, Alexander  Kazimirovitch Tolusch, nas palavras de Kasparov, um homem engenhoso e de  caráter muito alegre. “Depois que ganhava uma partida informava aos seus  amigos: “Drácula foi caçado”! Quando seu oponente opunha desesperada  resistência, falava: “a carne de canhão resiste”! Quando este por fim se  rendia, dizia: ”Mordi o polvo”! Ao analizar uma partida blitz se autoelogiava  com o seu conhecido grito de guerra: ”Adelante Kazimirich”! Esta expressão se  converteu em lema para toda uma geração de jogadores. “Kazimirich, disse  Spassky, me revelou o mundo mágico das combinações. Tolusch entendia  perfeitamente todos as sutilezas psicológicas da luta no xadrez. E não só no  xadrez, como também no pôquer. No entanto, as maneiras de Tolusch não agradavam  a todos igualmente. A Botivinik, por exemplo, “no le gustaba”. O motivo  ocorrera durante a <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1032086" target="_blank">partida Tolusch versus Botivinik</a> , no 13˚ Campeonato  Soviético, em 1944. Tolusch havia dado mate na casa f7 com estas palavras: “Es  mate, Mikhail Moisevitch”! Desde então a palavra Tolusch soava aos ouvidos de  Botivinik como um juramento.  Recordo que quando <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1067209">esmaguei Karpov</a> , na fantástica 16º partida de nosso match de 1986,  Botivinik me mirou seriamente e pronunciou o seu veredicto: “Jugaste esta  partida al estilo de Tolush”! Naqueles anos eu não estava ainda familiarizado  com todas as sutilezas, porém compreendi pela sua entonação que aquelas  palavras não tinham nada de positivo. Na realidade a partida havia sido  excelente, mas Botivinik ao ver alguns sacrifícios “selvagens”, do tipo  especulativo, imediatamente se recordava de “Kazimirich”. Mais tarde na  introdução ao meu livro publicado na Rússia, sobre os matchs , tramou uma  explicação original para os meus reveses nas partidas 17˚ e 19˚, explicando em  parte por causa da minha vitória na 16˚: Kasparov  jogou sem alento, ao estilo Tolush, embora  tenha logrado uma vistosa vitória, achou que poderia  prosseguir com este estilo de jogo”! Com  estas palavras Botivinik expressava sua grande reprovação ao “estilo bufão”. O  mestre não admitia que pudesse ocorrer nada de acidental na partida e havia de  construir o edifício da partida de xadrez com um trabalho metódico, literalmente  ladrilho a ladrilho. Spassky pelo contrário  se associava ao estilo Tolush! Isto se tornou evidente no torneio de Tilburg,  em 1981 numa <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1069973" target="_blank">partida minha contra Larsen</a> , numa posição muito complicada, de  roques opostos, no qual preferi seguir por uma continuação posicional e  consegui um final favorável, embora tenha deixado escapar a vitória.  Na análise, Spassky sugeriu com insistência o avanço do peão “g” na jogada 13,  repetindo: “Aqui Tolush teria jogado g4”! Ao ouvir isto Larsen olhou Spassky  com cumplicidade e de forma ameaçadora gritou: “Kazimirich”.Todos estalamos em  gargalhadas.</p>
<p>Para ilustrar o “estilo Tolush” de Spassky, eu  quero lembrar o Campeonato da URSS de 1973 e o match de candidatos contra  Robert Byrne, em 1974. Quanto ao primeiro Korchnoi me havia dito que este  torneio fora o “canto do cisne” de Spassky, provavelmente o melhor torneio da  sua carreira. Este torneio tinha atraído os jogadores mais fortes do momento.  Estavam os duros combatentes, Keres, Smyslov, Geller, Taimanov, Petrossian, Tal  e Polugayévski, além das novas estrelas Karpov, Beliavsky e demais. Korchnoi e  Karpov haviam ganho brilhantemente o   Torneio Interzonal de Lenigrado e um ano depois haveriam de defrontar no  match de candidatos, porém Spassky jogou melhor do que todos eles, de forma  simplesmente insuperável! Parecia que estava restabelecido da sua derrota ante  Fischer. O seu jogo fácil e elegante queda refletido em duas partidas com  Tukmakov e Rashkovsky, que optaram  mal  pela Variante Najdorf, da Defesa Siciliana. <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1128942" target="_blank">Spassky x Tukmakov</a> ; <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1128944" target="_blank">Spassky x Rashkovsky</a> “. Kasparov.</p>
<p>A catástrofe de Riga – Spassky teve a sua chance de ser  campeão mundial em 1958, no 25˚ Campeonato da URSS que também tinha um caráter  zonal. Segundo Kasparov, Spassky neste momento não queria apenas ser campeão  mundial, mas “demonstrar quem era quem”. Seis rodadas antes do final marchava  com excelente pontuação: 9 pontos de doze; um ponto a frente de Petrossian e  dois pontos a frente de Tal. Havia vencido de forma fulminante, <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1034008">Bronstein</a> , <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1128408">Furman</a> e <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1128407">Krogius</a> e a sua  <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1111454" target="_blank">partida contra Polugayévski</a> seria considerada a mais brilhante do torneio.<a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1111454"></a> O  lance intuitivo 17-  Bxe6! E o inesperado  salto do cavalo em 20-Ca4!? Garantiram a premiação de melhor partida. Ao  finalizar esta partida, de acordo com as palavras de Kasparov, parecia que  Spassky tinha assegurado não só a medalha de ouro, mas também uma das vagas  classificatórias do Interzonal. Riga deveria ser o ponto de partida de uma  carreira dirigida até o título mundial. No entanto, como se diz que no momento  de glória, o infortúnio faz a sua aparição: Spassky nas cinco partidas  seguintes empatou três e perdeu as outras duas. Na última ronda a situação era  a seguinte: Tal e Petrossian lideravam a classificação com Bronstein a meio  ponto e Spassky e Averbach a um ponto. 5 candidadtos para 4 vagas! 3 deles  tinham empatado e Spassky joga a última ronda com a jovem estrela em  ascensão:Mikhail Tal! Para Kasparov, o êxito de Tal irritava Spassky e por  conseqüência, ele não avaliou adequadamente a situação. Com um empate, Spassky  teria um match de desempate com Averbach, no qual provavelmente  sairia vencedor. Esta partida segue uma  tradição imemorial desde que o xadrez foi inventado e dentre as numerosas  partidas jogadas em todos tempos, têm aquelas com tal cunho trágico que a  própria Caissa comparece para assistir. Todos os grandes jogadores do passado,  alguma vez jogou parte da sua existência (e do seu futuro!), numa única partida  dramática! Steinitz, Pillsbury, Capablanca, Scheletcher!</p>
<p>Boris Spassky x Mikhail Tal – Riga 1958. Empate  claro no lance 25, recusado por Spassky. Para Kasparov, a ira passou a  aconselhar Spassky. “Ele jogava ressentido com o mundo. Era impossível suportar  que Tal fosse homenegeado na sua cidade natal, Riga, local do torneio”.Do ponto  de vista estrito da posição, Spassky não tinha nenhum motivo para ter recusado  o empate. Segue a partida. Uma interrogação de Tal no lance 26-&#8230;Rf8? Seguido  de uma exclamação imediata de Spassky com 27-Tc2! Um lance duvidoso com o  31-&#8230;Ta6?! Seguido de pronta exclamação:  32-a5! E a resposta de Tal: 32-&#8230;b5! No lance 45 a partida é adiada com  iniciativa de Spassky.</p>
<h5><img style="float:none" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/spassky_tal1.gif" border="0" alt="" width="312" height="310" /></p>
<p>45&#8230;De6. Adiamento.</h5>
<p>“Os  segundos dos respectivos jogadores analisaram a partida durante toda a noite e  “esta noite antes da batalha” tem sido descrita por muitos autores, em  particular por Victor Vasiliev, no seu relato: <em>O Enigma Tal </em> e por Averbach no seu artigo: <em>A Hora do triunfo de Mikhail Tal”. </em> Kasparov. Segundo os relatos, as  análises do grupo de Spassky não conseguira achar um caminho até a vitória: o  rei de Tal, como uma enguia, sempre conseguia se infiltrar entre os próprios  peões. Às cinco horas da manhã, Spassky, finalmente se decidiu: “amanhã lhe  darei mate! Agora é o momento de ir dormir”. De acordo com Kasparov, na hora de  se dirigir para o local do jogo, Spassky, exausto, encontrou com Petrossian e  lhe falou com um sorriso: “Hoy serás campeón”! 46- Df4+! A jogada secreta. “Es  la más fuerte”. Kasparov. Chega-se ao lance 52, jogando-se de acordo com as  analises dos seus segundos tabuleiros. No lance 57-Tc8?! Com 57-Db8! Brancas  ganhariam(EschBach).57-&#8230;Td6? Ao invés de 57&#8230;Tc6! A jogada perdedora, más&#8230;</p>
<p><img src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/pagina.jpg" border="0" alt="" width="400" height="422" /></p>
<h5>Página  de análise após a interrogação de Mikhail Tal, 57-&#8230;Td6? Ao invés de 57&#8230;Tc6!  Observe a posição após a jogada 58-Rf8+ e veja que Spassky poderia ter ganho  com 59-g4!</h5>
<p>A  partida prossegue e chega-se a uma posição aonde a deusa Caissa, observa ainda indecisa.</p>
<p><img style="float:none" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/spassky_tal2.gif" border="0" alt="" width="313" height="310" /></p>
<p>Posição  depois de 64-Tc8. Tal concede um sinal de interrogação para este lance,  considerando que era essencial 64-Rg3. Kasparov acrescenta que também era  possível 64-Df8 – Rf6 com empate.Spassky porém seguia a ganhar, nas palavras de  Kasparov, por pura inércia, quando de repente percebe  a desagradável réplica de seu oponente e,  então, de acordo com uma testemunha presencial, com a “voz estranha e  alterada”, propôs tablas. 64&#8230;Da6 acompanhada das palavras de Tal: “joguemos  um pouco mais”! 65-Rg3? Caissa finalmente se decide. Tablas era conseguido por  65-Rd8! <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1128406">Ver  Partida Completa</a> .</p>
<p>Tal  finalizou o torneio em primeiro lugar com meio ponto a frente de Petrossian  e  enquanto era  sacado literalmente do torneio por multidão  de admiradores que o carregaram pelos ombros, Spassky enxugava furtivamente as  lágrimas e se retirava para os bastidores.O desfecho desta tragédia teve um  capítulo extra três anos depois, no 28˚ Campeonato da URSS, onde Spassky sofreu  uma derrota similar. Neste ponto o xadrez reflete uma profunda simetria com a  vida. Para Kasparov, estas duas tragédias foram fundamentais para Spassky:”Como  é bem sabido, os componentes do êxito no xadrez, não são só força e compreensão  do jogo e sim também estabilidade psicológica e capacidade para manter-se  inteiro nos momentos críticos.Mais tarde nos seus melhores anos,Spassky pode  extrair lições muito positivas destas catástrofes e jogar muito bem as partidas  decisivas.No entanto, naqueles anos o seu sistema nervoso não estava preparado  para provas tão severas”.</p>
<p>Em 1968 ganhou o <em>Oscar</em> de melhor enxadrista da Associação Internacional de Imprensa Enxadrística.  Conseguiu o primeiro lugar da lista das dez melhores partidas, publicadas pelo  Informador, em três números sucessivos! A <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1106072" target="_blank">derrota infringida a Penrose</a> , em  Palma de Mallorca, 1969 é um destes três prêmios de beleza.</p>
<p>Em 1969 se torna, finalmente, campeão mundial ao  derrotar Petrossian pelo escore de 12,5  – 10,5. Neste match Spassky mostrou toda a sua versatilidade ao adotar o estilo  Petrossian contra o próprio Petrossian! Em 1970 <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1044698" target="_blank">vence Fischer</a> de forma  fulminante, na Olimpíada de Siegen, em plena guerra fria. Depois desta vitória Spassky , na observação  de Kasparov, “dormiu em glórias”. Havia ganho o Oscar pela terceira vez. Em  1972 Spassky chegou para o match contra Fischer sem estar na sua melhor forma:  jogara poucos torneios e, mais grave, brigara com Bondarevsky.</p>
<blockquote><p><em>“</em> Fui<em> o mais forte jogador entre 1964 e 1970. Em  1971, Fischer era mais forte”.</em> Spassky.</p></blockquote>
<p>Em San   Juan, em 1974,  <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1128968" target="_blank">jogando contra Robert Byrne</a> , realizou à moda de Lasker, um sacrifício  posicional de dama&#8230;por duas peças menores!</p>
<p>Na primavera de 1974, enfrentou Karpov, no  match de candidatos e através deste match alguns experts especularam como teria  sido Fischer jogando contra Karpov. Spassky ganhou a primeira partida. <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1067809" target="_blank">Spassky x Karpov</a> e por esta partida o match parcecia confirmar os prognósticos dos críticos, mas no  entanto, terminou desfavorável com um escore de 1-4. Em várias partidas  Spassky obteve superioridade, mas  então já não tinha a precisão que sobrava em Fischer. Em 1983, em  Niksic, Kasparov tinha adiado a partida contra Petrossian e ao chegar ao restaurante  para almoçar, encontrou Spassky que lhe perguntou sobre a sua partida: “parece  que eu deixei escapar a minha vantagem”. E você, o que opinas? Spassky  respondeu: Não, não é tão simples. Os bispos são de cores opostas e isto é  favorável às brancas porque podem criar um ataque. Tens que mirá-lo. Petrossian  não veio almoçar! Isto significa que não gosta da sua posição”!  Esta observação permitiu Kasparov olhar a  partida de forma diferente. No reinício, Petrossian foi batido em nove jogadas.  Spassky conhecia bem os hábitos do seu histórico oponente.</p>
<blockquote><p>“Spassky perdeu o encontro para Fischer por pura estupidez. Sobreestimou  a si mesmo”. Botivinik.</p></blockquote>
<h5><img style="float:none" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/spassky_bulgaria.jpg" border="0" alt="" width="350" height="233" /></p>
<p>Convidado de honra no  MTel Masters, 2008, em Sofia, na Bulgária.</h5>
<p>Para  escrever este artigo eu usei abusivamente do livro de Kasparov, Mis Geniales  Predecessores, Vol III. Com Spassky, eu corrijo um erro de juventude: em 1972,  durante o “match do século”, eu tive Fischer como o herói e Spassky como o  odiado vilão comunista; uma apreciação em preto e branco, dicotômica e por  definição incapaz de captar as nuances existentes.</p>
<p>Spassky  é uma lenda que segue vivo. Ele é a conexão histórica com aqueles enxadristas  magistrais que desapareceram e que eles próprios são a magia do xadrez. Em  Tilburg, 1981, Kasparov informou a Spassky, antes da partida no qual saiu  derrotado, que iria lhe ganhar de forma arrasadora. A resposta: “Te ruego que  procedas”! Com Spassky uma era se fecha. Como no ato quarto, cena primeira, da  peça “A Tempestade”, de Shakespeare, na fala de Próspero, poderíamos dizer  sobre estes fabulosos enxadristas: ”Tranquiliza-te, senhor. Nossos  divertimentos já acabaram. Esses nossos atores, como já prevenira, eram todos  espíritos e desapareceram no ar, no seio do ar impalpável; e semelhante ao  edifício sem base desta visão, as altas torres, cujos cimos tocam as nuvens, os  suntuosos palácios, os solenes templos, até o imenso globo, sim, e tudo quanto  nele descansa, dissolver-se-á e, como este cortejo insubstancial acaba de  sumir, sem deixar atrás de si o menor sinal. Somos feitos do mesmo material que  os sonhos e a nossa curta vida acaba com um sono!”</p>
<blockquote><p><em>“Spassky é um dos dez melhores enxadristas  de todos os tempos”.</em> Fischer.</p></blockquote>
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		<title>Robert James Fischer &#8211; Parte 1</title>
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		<pubDate>Thu, 15 May 2008 00:26:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armínio Santos</dc:creator>
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		<description><![CDATA[por Armínio Santos O Historiador Heródoto escreveu que Xerxes, rei dos Persas, durante a batalha de Salamina contra os gregos, ao perder vários navios, durante uma tormenta, no Estreito de Dardanelos, ordenou que o mar fosse açoitado em represália pela ousadia. Antes de partir para esta batalha, um nobre solicitou ao “Grande Rei” que poupasse [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>por Armínio Santos</em></p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-271" title="Robert James Fischer" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/fischer1.jpg" alt="" width="260" height="191" /></p>
<p>O Historiador Heródoto escreveu que Xerxes, rei dos Persas, durante  a batalha de Salamina contra os gregos, ao perder vários navios,  durante uma tormenta, no Estreito de Dardanelos, ordenou que o mar  fosse açoitado em represália pela ousadia. Antes de partir para esta  batalha, um nobre solicitou ao “Grande Rei” que poupasse o seu filho  mais novo para que ele pudesse ter um auxílio na velhice. O rei  aparentemente concordou e no dia seguinte convidou o nobre para uma  refeição no seu suntuoso palácio. Depois de observar em silêncio o  nobre comer as carnes que lhe eram servidas, perguntou-lhe se estas  estavam saborosas. Diante do assentimento, Xerxes levantou uma  tampa aonde estava a cabeça do filho servida ao pai. O rei tornou a  perguntar-lhe: a carne estava saborosa? A resposta: Sim! Distanciado no  tempo e no espaço a vaidade de Xerxes e o desprezo pelo resto dos  mortais foi lembrada por alguns jornalistas durante o match que Fischer  travou contra Spassiki, na Islândia em 1972. O jogador americano  exigira e fora atendido pelo governo da Islândia que no seu percurso  até a sala do evento, pelas ruas de Reikjavik, todos os semáforos  estivessem da cor verde.</p>
<blockquote><p><em>Todo  filho criado sem pai se torna lobo! </em>Fischer<em>.</em><span id="more-270"></span></p></blockquote>
<p>Para falar de Fischer é preciso tentar separar o mito do homem e nem  sempre é fácil, pois lenda e realidade se confundem na vida deste  extraordinário enxadrista. Fischer sofria da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_Asperger" target="_blank">Síndrome de Asperger</a>,  um transtorno de múltiplas funções do psiquismo com afetação principal  na área do relacionamento interpessoal e no da comunicação. Também  sofriam desta síndrome personagens famosos na história como o físico <a title="Isaac Newton" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Isaac_Newton" target="_blank">Isaac Newton</a><span style="text-decoration: underline;">,</span> o compositor <a title="Mozart" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Mozart" target="_blank">Mozart</a>, os  filósofos <a title="Sócrates" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%B3crates" target="_blank">Sócrates</a> e <a title="Wittgenstein" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Wittgenstein" target="_blank">Wittgenstein</a>,  o naturalista <a title="Charles Darwin" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin" target="_blank">Charles Darwin</a> e o pintor e escultor  renascentista <a title="Michelangelo" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Michelangelo" target="_blank">Michelangelo</a>.  Segundo o &#8216;Erasmus Hall&#8217;, Fischer tinha o impressionante coeficiente  intelectual de 184, superior ao de Einstein. Desde criança tratava os  soviéticos como inimigos, embora a sua mãe tivesse morado 5 anos em  Moscou, lá, inclusive, nascera a sua irmã. Era anti-semita, embora  fosse judeu. A sua mãe era judia. Na adolescência, talvez devido a uma  vida com poucos recursos financeiros, desenvolveu o seu anti-semitismo.  Orgulhava-se de ter decorado o infame livro de Hitler, “Mein Kampf”.  Logo depois do atentado de 11 de setembro, ligou para uma rádio nas  Filipinas e proferiu um virulento discurso aprovando o ataque ao World  Trade Center. Em 1992 jogou um match revanche na Iuguslávia, contra  Spassiki com prêmio de U$$ 5 milhões.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-272" style="float:none" title="Match revanche Fischer x Spassky" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/fischer2.jpg" alt="" width="343" height="171" /></p>
<h5>Fischer durante o match patrocinado pelo genocida regime  sérvio, fazendo um gesto obsceno para os jornalistas.</h5>
<p>Sobre ele o ex-campeão mundial Botiviník,  antecipando o diagnóstico da Síndrome de Asperger, observara com extrema  agudeza:</p>
<blockquote><p><em>“A tragédia de Fischer provavelmente tem sido o fato  de lutar não só contra os seus oponentes no tabuleiro, mas também com  as suas impressões irreais do mundo exterior”. </em></p></blockquote>
<p>A mesma observação que Max Euwe fizera de Alekhine: &#8220;Alekhine é um  rei no tabuleiro de xadrez e um peão na vida real&#8221;, podia caber para  Fischer. No entanto, ao contrário de Alekhine que não tinha nenhum  álibi a seu favor, Fischer sofria de sérios transtornos mentais. Pouco  antes de morrer, em janeiro de 2008, arrancara todos os seus dentes:  temia que a antiga KGB colocasse microfones nas suas obturações!  Pressentindo a sua morte, na Islândia, solicitou que o seu enterro  fosse seguido por apenas 5 pessoas.Como no episódio dos semáforos, no  distante ano de 1972, ele também teve o seu pedido atendido.No começo  de 1980, por exemplo, ele adquirira o costume de só sair de casa de  madrugada e vestido como um mendigo para não ser reconhecido. Numa  destas saídas foi confundido pela polícia com um assaltante de bancos e  passou dois dias preso. Seu rol de excentricidades parecia inesgotável.  Para intensificar a pressão psicológica sobre os seus adversários,  juntou-se a uma seita religiosa só para não disputar partidas nos  sábados e deixar os seus adversários mais tensos. O detalhe: ele  comparecia aos salões dos torneios aos sábados&#8230; para jogar dominó!  Era paranóico com a iluminação: os organizadores lhe cediam duas  luminárias sob protesto de seus rivais soviéticos que desconfiavam que  estas luminárias extras propagavam radiação! Durante o match de 1972,  exigiu que a sua cadeira giratória fosse levada para a Islândia. A  cadeira passou por um raio X e foi desmontada: os soviéticos  desconfiavam que tinha um computador embutido na cadeira! No início da  década de 60, falou que desafiaria qualquer mulher do mundo, dando-lhe  a vantagem de um cavalo! Contra esta afirmação, Tal respondera:  “Fischer é Fischer, mas um cavalo é um cavalo”! Ao ser perguntado se as  mulheres podiam jogar bem xadrez, respondera: não, porque são incapazes  de agüentarem cinco horas caladas”.</p>
<blockquote><p><em>Esse falastrão! Só perderei para Mequinho se  for picado por uma cobra! </em><strong>Sobre o jogador brasileiro Mequinho que dissera  que caso Fischer perdesse para ele, não perderia a sua fama.</strong></p></blockquote>
<p>Em 1967, o príncipe Rainieri, de Mônaco solicitou para o torneio  realizado no principado, dois mestres americanos com uma condição: um  deles tinha que ser Fischer! Dois anos mais tarde eles tornaram a  convidar dois mestres americanos com uma condição: nenhum deles podia  ser Fischer! Quando o apresentador televisivo, Dick Cavalet lhe  perguntou na televisão qual era a sua maior satisfação, ele respondeu  com sinceridade: “Destruir o ego do meu adversário”! E completou: Gosto  de ver que eles têm medo! Porém Byrne que o conhecia bem, afirmava que  ele também temia o fracasso e por isso não jogou o match de 1975 contra  Karpov.</p>
<p><img class="alignnone size-medium wp-image-273" style="float:none" title="Fischer em completa concentração" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/fischer3-273x300.jpg" alt="" width="273" height="300" /></p>
<h5>Completa concentração.</h5>
<blockquote><p><em>Soy un especialista. Juego al ajedrez. Eso es una  cosa seria. Otra cosa no la sé, pero todo cuanto sé, lo domino a fondo.  (&#8230;)</em> <em>Lo que necesito es mucho descanso y una buena iluminación.  En especial, no soporto ningún ruido, pues me distraen en mi trabajo  profesional de calcular y combinar. (&#8230;)</em> <em>Soy meramente un  hombre, pero un hombre extraordinario. Mi mundo es el tablero blanco y  negro del ajedrez. En mis jugadas hay que ver movimiento y al mismo  tiempo arte; quien no consigue verlo me da lástima.&#8221; </em> Declaraciones de Fischer para la  revista yugoslava &#8220;Start&#8221;, en agosto de 1971</p></blockquote>
<p>Em 13 de julho de 2004, Fischer depois de uma longa ausência em  público, reapareceu no aeroporto internacional de Narita, no Japão,  aonde pretendia embarcar para as Filipinas com um passaporte que o  governo americano havia cancelado, devido a sua participação em 1992,  no match contra Spassiki, na Iuguslávia. As autoridades japonesas o  prenderam por oito meses, ao tempo que o governo dos Estados Unidos  emitiu uma petição solicitando a sua extradição.Em 15 de dezembro deste  mesmo ano, novamente, os islandeses aceitaram dar asilo político a  Fischer para assim ajudar-lhe a escapar do pedido de extradição dos  Estados Unidos. O seu repatriamento para Reykjavik foi efetuado a  despeito dos protestos dos Estados Unidos contra o governo islandês. Em  9 de março de 2005 recebeu um passaporte islandês com os cumprimentos  do governo pelo seu aniversário de 62 anos!Em 21 de março de 2005, o  parlamento islandês, aprovou conceder cidadania islandesa a Fischer,  por 40 votos com duas abstenções! Foi então posto em liberdade,  qualificando George W.Bush de criminoso e o primeiro ministro japonês,  Koizumi, de “títere de Bush”. Foi aclamado na sua chegada a Islândia  como herói por uma multidão de seguidores! Em 2005, Fischer encontra,  por acaso, com Anand, numa lanchonete em Reykjavik e conversam sobre  xadrez, Num determinado momento ele saca do bolso um tabuleiro e mostra  a Anand uma partida que ganhara contra o programa de computador Corus.  Anand comentara depois que a partida fora brilhante, mas as idéias  estavam estagnadas no ano de 1972. Fischer ignorava as novas idéias  surgidas com os computadores modernos.</p>
<p><img class="alignnone size-medium wp-image-274" style="float:none" title="Fischer observado por Tal" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/fischer4.jpg" alt="" width="199" height="228" /></p>
<h5>Observado por Tal.</h5>
<blockquote><p><em>En unas simultáneas, Fischer ganó la dama a su rival,  y éste volvió a ponerla en el tablero al irse el americano. Continuó el  juego normalmente y el hombre se vanagloriaba ante los espectadores de  que el genio no se había dado cuenta. Siete jugadas más tarde, Fischer  volvió a ganarle la dama, y esta vez se la metió en el bolsillo y se la  llevó, sin mediar palabra.</em></p></blockquote>
<p>Fischer nasceu em 1943, filho de Regina Wender e Hans-Gerhardt  Fischer; possivelmente o seu verdadeiro pai biológico foi o emigrado  húngaro Paul Félix<strong>. </strong>Seus pais se divorciaram quando ele tinha  dois anos e ele cresceu com sua mãe e a sua irmã Joan, nascida em  Moscou.Regina Fischer recebera uma bolsa do governo soviético para  estudar medicina entre os anos de 1933 e 1938, terminando o curso com  louvor. Falava fluentemente cinco idiomas.Regina, porém, não pode  trabalhar nos Estados Unidos como médica, pois ali não se reconhecia os  títulos de medicina obtidos em outros países.Em 1970, ela fez  especialização em medicina na então RDA, Alemanha Federal. Devido a  esta ligação da sua mãe com o bloco comunista, o FBI passou a vigiar a  família de Fischer desde a década de 40. Os documentos referentes a  isso somente seriam liberados, com inúmeras tarjas negras sobre o  texto, em 2002.Fischer aprendeu a jogar sozinho ao ler as instruções de  um jogo que recebera de presente da sua irmã. O seu estímulo para o xadrez, porém, como acontecera no passado com a visita de Pilsburry,  respectivamente a Moscou e Havana, e que influenciara os garotos  Alekhine e Capablanca, deu-se com uma visita que o então campeão  mundial Smyslov fez aos Estados Unidos em 1954.Com a idade de 7 anos  começou a freqüentar o clube de xadrez do Brooklyn. Em 14 de janeiro de  1951, com oito anos de idade, a sua mãe recebera uma carta do redator  da seção Helms que pedia para levar o seu filho no dia seguinte à  biblioteca, aonde um certo Dr.Pavey iria jogar umas simultâneas.  Fischer se apresentou no dia seguinte para jogar, da mesma forma que  acontecera com o menino Mikhail Tal quando o campeão Botivinik esteve  em Riga para jogar uma simultânea. Tal chegou ao hotel aonde Botivinik  estava hospedado com um tabuleiro nas mãos e disse: quero jogar com  Mikhail Moisevich. Disseram-lhe que Botivinik estava dormindo! Aos 16  anos abandonou a escola para se dedicar em tempo integral ao xadrez.  Ele era um aluno completamente desinteressado.Frank Brady mencionou que  uma vez encontrara um exercício de matemática, datado de 16 de outubro  de 1956, com a observação: insuficiente. De acordo com D.Bjelica,  Fischer,apesar de ser muito inteligente não mostrava nenhum interesse  pelos estudos.As vezes sacava um tabuleiro de bolso, nas  aulas e analisava algumas partidas. Quando o seu professor se dava  conta, dizia: Fischer, não posso obrigá-lo a que escutes a lição e nem  proibi-lo de jogar xadrez, porém, por favor, jogue sem o tabuleiro.  Fischer então abandonava o tabuleiro e sentava-se tranqüilo e todos os  professores e alunos sabiam que ele estava analisando as partidas  mentalmente. Certa ocasião falou: “os professores são ignorantes,  provavelmente porque a maioria deles não joga xadrez”! Não obstante,  ele tinha uma habilidade muito grande com idiomas. Era o melhor aluno  de espanhol e aprendeu russo devido não só a influência da mãe que  vivera cinco anos em Moscou, mas também para aprender a teoria do  xadrez. Ele disse: “Eu estudei russo ouvindo a rádio Moscou e através  do conhecimento do russo seguia as partidas de Botivinik, Bronstein,  Taimanov, Tal e Spassiki. Antes de jogar com eles eu já ouvira os seus  estilos”! Fischer falava também, fluentemente o servo-croata. Quase não  se interessava por nada que não fosse xadrez. Robert Byrne ouvira dele,  em certa ocasião, que a melhor coleção que existia, fora o <em>Informador</em>,  era a coleção do Tarzan! Desta coleção, gostava, particularmente, do  “Regresso de Tarzan”. D.Bjelica conta que o acompanhou, em Sarajavejo,  ao lugar histórico aonde Gavrilo Princip disparou contra Francisco  Ferdinand, em 1914, episódio tido como o estopim da primeira guerra  mundial. Quando Bjelica acompanhando e explicando os passos de Gavrilo  chegou diante da chamada “Ponte do Princip”, no local aonde ocorreram os  tiros, Fischer, subitamente, abriu um livro de xadrez e disse: traduz o  que diz aqui: as negras tomam a dama em b6? No dia seguinte fora  convidado para uma recepção, porém disse para o seu acompanhante:  recuse e vá atrás de todos os boletins do campeonato yuguslavo aonde  haja jogado Gligoric!</p>
<blockquote><p><em>El punto fuerte de Fischer es su versatilidad. En su  estilo se aprecia una constante búsqueda de la iniciativa y &#8216;respeto  por el material&#8217;, armoniosamente combinados. Puede sacrificar material  por ataque, pero también puede aceptar un sacrificio y asumir una  defensa difícil&#8230; Fischer ha dominado el método psicológico de  preparación, eligiendo de antemano la modalidad de combate.&#8221; </em><strong>(Viktor  Korchnoi)</strong></p></blockquote>
<p>Em 1956 a sua mãe conseguiu que John W. Collins, professor de Robert  Byrne e William Lombardy, aceitasse Fischer como discípulo. Sua  ascensão foi muito rápida.Com treze anos participou do &#8220;Rosenwald  Memorial&#8221; e a sua partida contra Donald Byrne foi considerada por  muitos como a melhor partida do século XX.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-275" style="float:none" title="Partida Fischer x Byrne, 1956" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/fischer5.jpg" alt="" width="228" height="300" /></p>
<p><a href="http://www.canal-h.net/webs/rguerrero001/Visor/fischer1.htm" target="_blank">Partida  Fischer x Byrne &#8211; 1956</a></p>
<p>Esta partida fez a fama de  Fischer. Averbach após analisar a partida fez o seguinte comentário: <em>Tras haber  visto la partida, quedé convencido de que el niño tenía un talento  verdaderamente diabólico&#8221; (Yuri Averbakh).</em><strong></strong> Kasparov, em My Great Predecessors Vol IV, assinala que o crescimento  de Fischer se deveu nesse momento ao treinador Jack Collins. No  entanto, Kasparov credita ao Collins apenas parte do progresso do jovem  Fischer. A outra parte se deveu, de acordo com Kasparov, a leitura de  praticamente todos os livros de xadrez, de alto nível, disponíveis no  mercado. “Bobby absorveu mais livros de xadrez do que qualquer um, em  qualquer tempo”! Kasparov. Collins admitiu que a sua contribuição para  a formação de Fischer, foi reduzida. Escreveu: “Ele foi geneticamente  programado para jogar xadrez! Ele conhece antes que eu explique o que  é! Acrescentou ainda: Para Bobby Fischer, eu posso usar as mesmas  palavras que Beethoven usou para definir a música de Schubert:  “Aprendeu diretamente de Deus”!!</p>
<p><em>Saia de cima dos trilhos imediatamente! </em>Regina, mãe de  Fischer, apavorada ao ver um trem que se aproximava enquanto o jovem  reproduzia sentado nos trilhos uma partida de xadrez, no seu tabuleiro  de bolso!</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-276" title="Fischer na capa da revista News Week" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/fischer6.jpg" alt="" width="192" height="272" />Em 1957 obteve o título de campeão dos Estados Unidos. Reshevsky lhe  disse na ocasião: “Todos que jogaram contra ti, jogaram muito mal, tens  tido muita sorte”! Este campeonato tinha um caráter zonal para a FIDE e  este fato abriu a carreira internacional para Fischer. Com a idade de  15 anos obteve o título de Grande Mestre ao ocupar a quinta colocação  no torneio Internacional de Portoroz se tornando o enxadrista mais  jovem a obter este título até aquele momento. Esta colocação deu-lhe  também o direito de disputar o torneio de candidatos para o título de  campeão mundial. Em 1958, através de um acordo entre a Federação Russa  de xadrez e a Federação Americana, acertou-se dois matchs treinamento  entre Fischer e o então campeão mundial júnior, Spassiki e também  contra o campeão moscovita Vasyukov. Na chegada a Moscou, Fischer  declara subitamente que não quer jogar com nenhum dos dois jogadores e  sim com o campeão mundial Botivinik! Este recebeu o convite com um  sorriso e cortesamente recusou. Em Moscou Fischer freqüentou o Central  Chess Club onde por duas semanas comparecia sempre pela manhã. Para as  partidas “blitz”, o clube convidou Bronstein e Petrossian. No  relâmpago, Bronstein adaptou-se rapidamente ao então estilo de Fischer  e ganhou com um grande escore. Ao que parece, Fischer não digeriu bem  esta derrota e num restaurante local, reclamou de um cabelo na comida e  disse algo que o intérprete entendeu como: “os russos são porcos”. A  tradução foi passada para os seus superiores e ele recebeu uma diretiva  para deixar Moscou. Fischer saiu de Moscou com grande ressentimento dos  jogadores soviéticos, a exceção de Petrossian, por não ter recebido  qualquer atenção dos demais jogadores. Ele tinha 15 anos e nunca  esqueceu esta humilhação.O ressentimento era uma característica  marcante em Fischer. Em Portoroz, Fischer travou a primeira grande  batalha com o bloco soviético. A sua primeira partida, porém, foi  contra Bent Larsen. (<a href="http://www.canal-h.net/webs/rguerrero001/Visor2/Fischercoleccion.htm">ver partida</a>),  na defesa dragão da siciliana. Poucas vezes um grande mestre recebeu  uma derrota tão contundente. O escore de Fischer na dragão, só  comportou uma única derrota em toda a sua carreira. Após o jogo, Larsen  explicou que evitou uma linha de empate no lance 15 porque estava  jogando para vencer! Contra Gligoric ele plantou uma novidade na defesa  siciliana e obteve um empate depois de tentar um forte ataque. Em  Portoroz ele tirou quinto lugar . No torneio de candidadtos que se  seguiu ele obteve a sexta colocação. Em Zurique, 1959 ele enfrentou  Paul Keres, numa partida memorável. Nesta partida, destacada por  Kasparov em Mis Geniales Predecesores Volumen 4&#8243;, existe um marco  histórico: Fischer torna-se um sério competidor contra os jogadores  soviéticos. “Nesta partida fascinante no qual, Fischer seguindo as  recomendações de Alekhine que declarara que a partida de xadrez é ganha  três vezes: na abertura, no meio jogo e no final, supera Keres, um dos  maiores conhecedores da abertura Rui López, amplamente nas três fases  do jogo, terminando o torneio na terceira/quarta colocação. <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1072809">Fischer x Keres</a></p>
<p>Neste torneio Tal fez a seguinte observação sobre Fischer: é  incrível como o padrão deste jovem jogador de dezesseis anos melhora a  cada jogo. Fischer é um jogador perigoso e que não concede empate fácil  a nenhum adversário”! Na partida de Fischer contra Gideon Barcza, Tal  comentou:</p>
<p><em>&#8220;A Fischer no le gustaban las tablas fáciles y luchaba hasta que  el material desaparecía por completo. En el fuerte torneo de Zurich  1959, contra el participante más veterano, el gran maestro húngaro  Gideon Barcza, el joven Fischer de 16 años no tenía ventaja, pero al no  contentarse con las tablas, la partida se prolongó hasta la jugada 103.  Se aplazó en tres ocasiones, los jugadores cubrieron dos planillas,  pero incluso cuando sólo quedaban los reyes sobre el tablero, ¡Fischer  realizó dos jugadas más! ¡Tablas! Anonadado por un asalto tan fanático,  Barcza apenas podía levantarse de la silla, pero Fischer dijo, como si  nada hubiera sucedido: &#8216;Echemos un vistazo desde la primera jugada.  ¡Seguro que en algún momento podía haber jugado mejor!&#8217; Entonces,  Barcza le imploró: &#8216;Mira, tengo mujer e hijos. ¿Quién los alimentará si  muero antes de tiempo?&#8217;&#8221;.</em></p>
<p>Antes do Torneio de Candidatos de 1959, um rico fabricante de móveis  de Manhatan propôs financiar Fischer e disse para este: “Quando você  der uma entrevista diga que não poderia vencer o torneio sem a minha  ajuda”! Eu não posso fazer isto, foi a resposta. Se venço um torneio  venço pela minha própria capacidade!</p>
<p>No Torneio de Candidadtos realizado em outubro de 1959, em três  cidades da Iuguslávia: Bled, Zagreb e Belgrado, os oito competidores  tinham de jogar 28 partidas cada.Os favoritos eram Tal, Keres, Smylov e  Petrossian. Na opinião de Tal, Gligoric deveria ser incluído entre os  favoritos, mas sobre Fischer fora categórico: Ele ainda não está maduro  para jogar na elite do xadrez mundial”! Durante uma das sessões, Tal se  traiu ao dar um autográfo, se equivocou e escreveu Fischer, quando  notou o erro falou: “a forma pelo qual ganhei dele me dá o direito de  assinar o seu nome”! Ele poderia ter acrescentado também que este seria  o primeiro encontro a valer, de Fischer, com a nata do xadrez.  Novamente Fischer enfrentou Keres. 1&#215;0. Na roda seguinte, bateu  Gligoric na dragão, com o mesmo sacrifício que fizera contra  Larsen(26-Txh5!) e depois Benko. Neste ponto, Kasparov faz o seguinte  comentário: “Uma rápida ascensão no xadrez, gera um número de  problemas. Um deles é a quantidade e qualidade de conhecimento que é  requerido para um jovem talento ser capaz de competir com sucesso num  supertorneio. Na minha época eu fui bastante ajudado por treinadores  como Alexander Nikitin e Alexander Shakarov e também consultávamos  Botivinik. Mas Fischer trabalhava praticamente só. Em todo tempo o seu  repertório era ainda muito restringido e cada participante deste  torneio na Iuguslávia tentava explorar esta fraqueza. Neste torneio  Fischer, embora tenha tirado em sexto lugar, lutou com toda a sua força  e em momento nenhum teve o seu espírito quebrado. Foi aqui que  Botivinik analisou o seu jogo e falou que Fischer tinha um brilhante  talento. Botivinik disse ainda que Fischer estava ajustado à escola  soviética de xadrez no qual Tschigorin fora o fundador e estava certo  que Fischer teria um grande futuro. A inclusão de Fischer à escola  soviética de xadrez foi a única distinção feita a um jogador ocidental  por Botivinik. Curiosamente, a perda do título mundial de 1960 para  Tal, irritou Fischer.</p>
<p>No Torneio Internacional de Mar Del Plata, em abril de 1959, Fischer  tem a sua primeira vitória num evento desta natureza. Após perder na  segunda rodada para Spassiki, Fischer pontua 13,5 de 15, seguido de  Bronstein com 11,5.</p>
<p>Em 1960 ganha o campeonato americano e em 1961 tem um dos encontros  mais curiosos do xadrez, num match com outro prodígio: Samuel  Reshevsky. Quando o magazine Chess Life perguntou aos grandes mestres  Tal, Petrossian, Larsen e Gligoric sobre o desenlace deste match, não  houve ninguém que apostasse em Fischer. Considera-se que caso não  houvesse um grave incidente durante este match, a previsão dos mestres  poderia se revelar correta. Naquele momento (1961), Fischer não  estaria ainda à altura de Reshevsky. A importância deste match para  Fischer foi muito grande, pois ele incluiu a segunda, a quinta e a  décima-primeira partidas no seu livro clássico “My 60 Memorables Games”.</p>
<h3>Match  Fischer Versus Reshevsky – 1961</h3>
<p>A primeira  partida foi ganha por Reshevskyy, na Defesa Índia do rei – <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1008403">Ver partida</a></p>
<p>Fischer dá  o troco na segunda partida, na Defesa Siciliana(Flanqueto acelerado) – <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1044538">Ver partida</a></p>
<blockquote><p><em>Fischer comporta-se como um  selvagem quando se sente ameaçado. </em>O’Kelly</p></blockquote>
<p>Segue-se mais dois empates e chega-se a famosa quinta partida,  defesa Semi-Tarrasch, reproduzida por Fischer no seu livro “60  Memorables Games”. <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1008403">Ver Partida.</a> No prefácio desta partida, no livro de Fischer, consta: Esta é  provavelmente a mais excitante partida do match. Pura tática predomina  por dez movimentos(19-29). Reshevsky emerge com vantagem e força  Fischer jogar por um empate. Mas no entanto, se vê pressionado pelo  tempo e joga uma linha agressiva, refutada por Fischer que retoma a  vantagem. De acordo com Kasparov, chega-se ao ponto de inflexão no  lance 20 quando Reshevsky joga 20-De3. Kasparov pontua, citando  Dvoretsky, o lance 20-Df3 com vantagem para Reshevsky. Este joga de  forma brilhante, com dois lances de exclamações: 24-Be4! e 28-a4! E  torna a exclamar no lance 30-Tec1!Para se confundir no lance 33-Te2 ?!  No entanto, deixa escapar a vitória no lance 36-Tf2? Quando poderia  ganhar, de acordo com Dvoretsky, com o 36-Tb4! A interrogação no  adiamento com o lance 40-Tc6? Sepulta de vez as chances de Reshevsky.  Após esta derrota, um empate na sexta partida e Reshevsky ganha a  sétima, na defesa Nimzoíndia – <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1044538">Ver partida.</a></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-277" style="float:none" title="Match inacabado com Reshevsky" src="http://www.ccx.org.br/blog/wp-content/uploads/fischer7.gif" alt="" width="363" height="355" /></p>
<p>O match estava empatado em 5,5 pontos quando houve o incidente na  décima –segunda partida. Reshevsky por ser judeu ortodoxo não jogava  aos sábados. Foi decidido que o jogo recomeçaria no domingo as 13:30.  No entanto a senhora Piatigorsky, organizadora do match e esposa do  famoso violoncelista Grigory Piatigorsky, queria assistir a  apresentação do marido à noite e marcou o jogo para às 11 h da manhã.  Fischer acordava sempre por volta das 14h. A resposta foi: ”Senhora, eu  não jogo neste horário”. Na hora marcada, após decorrer 1 hora no  relógio, sem a presença de Fischer, Reshevsky foi declarado  vencedor.Ato contínuo Fischer abandonou o match e Reshevsky exigiu a  soma de U$ 4500 destinado ao vencedor. Fischer considerou a decisão  ilegal e ameaçou abortar o match. A Federação americana deu ganho de  causa a Reshevsky e Fischer contratou um advogado para entrar com uma  causa na Suprema Corte! Um outro episódio deste confuso match se deu  entre as preferências de Reshevsky pelo ar condicionado na sala dos  jogos e de Fischer pelo ventilador. O juiz decidiu que a cada turno de  jogo se alternasse o ventilador e o ar condicionado. Por conta destes  incidentes os dois jogadores não trocaram nenhuma palavra. Em 1963,  Jacqueline Piatigorsky convidou 8 grandes-mestres para jogar a Copa  Piatigorsky. Fischer recebeu o convite e condicionou a sua participação  ao pagamento de U$2000 que ele alegara ter perdido no match contra  Reshevsky! Esta foi a razão pela qual o torneio foi realizado sem a sua  participação. Fischer, em razão deste match, desferiu ataques  virulentos de anti-semitismo contra Reshevsky, esquecendo-se que ele  mesmo era judeu. Como a Federação americana tomou o lado de Resehevsky,  Fischer concluiu que estava em marcha uma conspiração da Federação, dos  Piatigorsky, da imprensa, contra ele pelos descendentes dos Rotchilds.  Kasparov cita este triste episódio, no seu livro sobre Fischer e  discute se o anti-semitismo de Fischer foi desencadeado por este  evento, concluindo que não:desde a adolescência Fischer já emitia  discursos racistas contra judeus,homossexuais, comunistas e o seu  anti-semitismo foi aumentando com a idade. “Reshevsky contou-me que  durante torneio Interzonal em Mallorca, viu Fischer com um livro e  perguntou-lhe: o que está lendo? A resposta: “um livro muito  interessante: Mein Kampf, de Hitler”. Kasparov. Ao ser perguntado mais  tarde sobre os dez maiores enxadristas da história, colocou Reshevsky  na lista.</p>
<p>Em Bled,  ainda em 1961, ele obteve a primeira vitória contra Tal, depois de um escore  desfavorável de 4-0. <a href="http://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1008404">Ver partida.</a> Foi neste jogo que Tal fez a famosa observação: “É difícil jogar contra a  teoria de Einstein”!</p>
<p>Em 1962, em Curaçao, Fischer acertadamente rompeu com o sistema de  competição para o título mundial: “É impossível jogar com os grandes  mestres soviéticos em igualdade de condições! O sistema de competição  imposto pela Federação Soviética de Xadrez, garante que o campeão do  mundo seja sempre um soviético, pois só eles podem ganhar o torneio  prévio. No que me diz respeito as coisas podem seguir assim. &#8220;Nunca  mais jogarei nestes torneios”. Fischer. Falou mais ainda: “ Em Curaçao  os jogadores soviéticos fizeram um acordo secreto. Eles empatavam  previamente e também deliberavam entre si, enquanto jogavam”. Fischer  apontou diversas partidas no qual houve empate e mostrou que muitas  delas podiam ser ganhas por um dos lados. Acusou Korchnoi, Petrossian,  Geller e Keres de combinar partidas. No mês de agosto de 1962, Fischer  publicou um artigo na “Sports Illustrated” com o título: “<em>How the russians fixed world chess</em>”  (“Como os russos fraudam o xadrez mundial”). Fischer eximiu Tal da  acusação. Em Curaçao, Tal abandonou o torneio devido ao seu problema  nos rins e Fischer o visitou no hospital. Averbakh em entrevista para a <em>Schaaknieuws</em> , citou outra conspiração: desta vez para  prejudicar Keres. Na versão de Averbach “os russos” não queriam Keres  como desafiante do campeão, porque era um estoniano, nem Geller, porque  era um ucraniano de origem judaica – por consequência o vencedor,  escolhido nos bastidores, fora Petrosian. O problema da versão de  Averbach era que as duas derrotas que impedira Keres de conseguir o  título fora justamente contra Fischer e Benko, norte-americanos. A  resposta de Averbach fora que a delegação soviética recebera a derrota  de Keres por Benko, com alívio. A organização do evento recebeu ainda  uma solicitação de Fischer pedindo a expulsão de Benko do torneio. A  alegação de Fischer era que Benko tinha invadido o seu quarto no meio  da noite pedindo-lhe que cedesse o seu analista Artur Bisguier para  analisar a partida suspensa contra Petrossian. Fischer, então com 19  anos, mas revelando maturidade, negou categoricamente e segundo ele foi  xingado e quase agredido por Benko. A sua justificativa, no entanto foi  muito lógica: Benko é norte-americano, mas é meu adversário neste  torneio!</p>
<p>Bronstein já indicara que as observações de Fischer tinham fundamento  e revelou que ele mesmo fora impedido de obter o título mundial jogando  contra Botivinik, pelo <em>establishment</em><strong><em> </em></strong> soviético. No final dos anos  quarenta, o jovem Bronstein era considerado o melhor jogador do mundo.  Em 1951, no duelo com Botivinik pelo Campeonato do Mundo, estava na  liderança, quando, faltando pouco para terminar, perdeu a famosa  partida 23, que daria lugar a rumores e suspeitas sobre conspirações.  Em 1960 quando Fischer perdeu para Spassiki e assumiu um ar choroso,  Bronstein lhe disse: Ouve&#8221;, &#8220;eles me forçaram a perder um encontro  inteiro contra Botivinik e não chorei&#8221;(Chessbase noticias, 6/12/2006).  Depois da denúncia de Fischer, A FIDE, sob pressão norte-americana,  acabou com o Torneio de Candidatos, substituindo-o por matches entre os  pretendentes ao título.</p>
<blockquote><p><em>&#8220;Fischer es el mejor  ajedrecista de todos los tiempos&#8221;</em> <strong>Kasparov em &#8220;Mis Geniales  Predecesores Volumen 4&#8243;.</strong></p></blockquote>
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