Ao que parece, a invenção do xadrez está ligada a um episódio sangrento.
Com efeito, conta uma lenda que quando o jogo foi apresentado pela primeira vez à corte, o sultão quis premiar o obscuro inventor realizando qualquer desejo seu. Ele pediu uma recompensa aparentemente modesta, a de receber todo o cereal que pudesse resultar de uma soma simples: um grão na primeira das sessenta e quatro casas, dois grãos na segunda, quatro na terceira, e assim por diante…
Mas quando o sultão, que de início havia aceitado de bom grado, deu-se conta que não existiria cereal suficiente em seu reino, e talvez no mundo inteiro, para satisfazer a um tal pedido, considerou oportuno, para se livrar do embaraço, cortar-lhe a cabeça.
A lenda silencia o fato de que o soberano teve de pagar, a seguir, um preço bem mais alto: apaixonou-se pelo novo jogo até perder a razão.A avidez do mítico inventor, de fato, só encontra igual na do próprio jogo.
Esta apresentação é o ponto de partida de um romance policial, "A Variante Lüneburg", de Paolo Maurensig, editado pela Companhia das Letras, sucesso editorial na Itália, 140 mil exemplares vendidos nas primeiras semanas, que gira em torno do jogo de xadrez.
O assasinato misterioso de um alto empresário alemão e ex-oficial nazista, diante de um rústico tabuleiro de xadrez, expresso num artigo de uma gazeta: "ninguém jamais poderá explicar por que naquela noite o dr. Frisch escolheu, entre os tabuleiros de xadrez de sua preciosa e renomada coleção, um trapo como aquele. Talvez apenas para jogar sua última partida: aquela com a morte".A partir deste ponto a busca da verdade conduz a outros territórios e outros gêneros: o conto filosófico,o romance de iniciação, tendo como campo o xadrez e a psicologia obsessiva daqueles que dedicaram a vida a esse jogo.
O leitor não precisará conhecer o jogo para acompanhar a história. A Variante Lüneburg é uma variante de ataque: um movimento aparentemente ilógico, que introduz o caos na ordem racional do jogo. Este fio condutor confrontará dois antagonistas, numa história de vingança que atravessará os campos de extermínios nazistas, na segunda guerra, até o presente. A exemplo do belo filme de Ridley Scoott, "Os Duelistas", no qual a obsessão doentia de dois oficiais do exército napoleônico atravessam os anos, levando-os a confrontos sucessivos, até o clímax,no último duelo, quando não são mais jovens, na Variante Lüneburg a obsessão é o xadrez. O tabuleiro e a vida real tornam-se, então, dois mundos paralelos: cada movimento num deles se reflete no outro, com conseqüências fatais.
O estilo claro e objetivo do autor, se mantém colado ao enredo, não concedendo digressões. Os personagens são moldados em tipos narrativos clássicos, de natureza complexa e perturbados. Maurensing se movimenta segundo esquemas e variantes, como se estivesse, ele também, jogando uma partida.
Em síntese, um livro de tirar o fôlego, do início ao fim e que não despreza, em momento algum, a inteligência do leitor.
Um outro livro com a mesma temática é Impasse, de Icchokas Meras, com um enredo um tanto semelhante ao livro de Maurensing. O personagem central, o judeu Isaac Lipman, enxadrista criativo, enfrenta um desafio proposto pelo oficial nazista, Adolf Schoger, também enxadrista e antigo rival de Lipman. Caso seja vencedor, Lipman evitará que todas as crianças judias do gueto de Vilnius seja enviada para os campos de extermínio, mas neste caso ele mesmo será morto.O personagem opta pela procura do empate, na tentativa, talvez impossível, de reter “dois pássaros voando”. Uma estratégia, sem dúvida, cheia de riscos e com um desfecho inesperado.

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