O ano era 1996. Eu havia seqüestrado um livro de xadrez que achara na casa do meu amigo Dan. Era um livro para iniciantes. Eu não sabia jogar bem mas fiquei muito impressionado com a historia dos grandes mestres de xadrez e descobri que uma partida de xadrez poderia ser anotada e estudada; descobri a existência das aberturas e defesas, fiquei fascinado pelo jogo, logo quis achar um adversário para praticar.

Jogava com Dan, mas ele logo se tornou um adversário fraco. Danei-me procurando pessoas que jogavam xadrez, e no colégio achei algumas pessoas, como Rogerio, que jogava bem. Havia um outro colega que sempre levava um tabuleiro e nós por vezes matávamos aula pra ficar jogando. Tinha até fila. Logo apareceu nosso amigo Antonio que também jogava e em pouco tempo o nível dos jogadores da escola foi se tornando baixo. Eu, Antonio e Rogério jogávamos os três e passamos assim um bom tempo mudando de nível. Não encontrávamos adversários que valessem a pena. Até que um dia, descobrimos que na cidade havia um Clube de Xadrez. Rogério veio com essa informação e ainda disse que havia relógios e uma biblioteca. No outro dia mesmo marcamos de fazer uma visita no clube e com muito entusiasmo fomos na esperança de achar varias pessoas para jogar.

Achamos o prédio do Clube Conquistense de Xadrez que naquela época era sediado na rua João Pessoa no primeiro andar do arquivo municipal. Era um sobrado antigo o que conferia ao clube uma atmosfera mais elegante.

Depois de subir pela primeira vez a escada do CCX e passar pela porta, fui tomado por uma súbita emoção e ali mesmo tive a certeza que minha vida havia mudado de direção, ao ver várias mesas em série onde havia em cima de cada uma delas armadas, cuidadosamente, belíssimas peças de xadrez acompanhadas de relógios especiais que eu jamais havia visto, e o mais interessante era o que havia atrás das mesas - muitas jogadoras de xadrez todas elas bem bonitas. Para quem estava procurando pessoas para jogar, era mais do que útil era também agradável e a idéia de unir o útil ao agradável é fascinante. Parecia que eu estava em casa, era um dia de campeonato e por isso aquele rebuliço todo no clube. Chegamos no dia certo! Fizemos nossa inscrição e desde já nos tornamos sócios. Daquele dia em diante, passamos a freqüentar o clube diariamente. Estávamos impressionados e conhecemos jogadores de nível bem mais alto que o nosso. Isso fez nosso xadrez aumentar bastante a qualidade, aliado ao estudo dos livros da biblioteca.

Eu praticamente ficava o dia todo no clube a ponto de abdicar da escola e perder de ano, e em pouco tempo éramos já bem conhecidos e não demorou para nós ingressarmos na diretoria.

Conhecemos muita gente e todos do clube eram como uma família. Tinha muita gente e todos bem unidos, seguíamos sem perceber um lema da Federação Internacional de Xadrez (Fide) que era Gens Una Sumus (Somo uma só família).

Havia campeonatos a todo momento, e nós vibrávamos quando os campeonatos eram sediados em clubes com piscina, pois era muito divertido jogar as partidas e logo correr para piscina, afinal, a atividade física é muito importante para nós enxadristas. Bem, era muito divertido, havia os campeonatos fora da cidade que eram organizados por colégios e/ou por empresas privadas como Copa Sigma e Copa Helyos, campeonatos onde os jogadores do clube iam participavam e levavam praticamente todos os prêmios.

O CCX tinha orgulho de mostrar jogadores de nível estadual e, por vezes, estávamos a frente dos torneios estaduais e fomos campeões através de um dos nossos jogadores mais ilustres Pedro Ferreira. Estávamos sempre marcando presença no topo também com o Arminio Santos, Marcelo Amaral, Joanilton Capablanca, Orlando Damasceno, dentre outros.

As viagens para os campeonatos eram muito engraçadas. Imagine uma trupe de adolescentes dominando um ônibus em direção ao desconhecido. Lembro como se fosse hoje muito saudoso da ultima viagem que fiz até Salvador (onde moro hoje) junto com a galera do CCX. Era o campeonato baiano, e viajamos no microônibus da UESB num conforto inigualável. Depois de nossa peripécia pelos caminhos tortuosos, chegamos a Salvador, mais uma luta para achar nosso local de hospedagem e pronto. Lembro da presença de Brancão, Rogério, Pedrinho, Gege, Neliane, Amélia, Bad, Bocão, Washington, Daniele, Aila, Wilham, Wilhelm, Badim, Pedro, Robertinha, Bozo e muitos outros.

O Campeonato foi sediado no badalado Clube de Bridge, na Graça; um lugar muito legal. Nos campeonatos, havia uma atmosfera única, até o cheiro era diferente, não importava o lugar. Acho que tinha a ver com o nervosismo antes do jogo…

Eu sei que nós jogamos o campeonato, mas a final ficou mesmo com Hemar Barata, representante de Salvador e Pedro Ferreira, representante de Conquista. Depois de uma partida de quase 4 horas, apareceu o vencedor, nosso mais novo campeão baiano Pedro Ferreira, meu amigo! Bem, festejamos muito, e na casa onde estávamos hospedados era uma festa, muita bagunça e gente acordando com pasta de dente no rosto e coisas do tipo.

Eu sei que isso tudo me deixa saudoso de uma época que foi de ouro, onde conheci amigos especiais onde minha vida mudou pois parei de fazer muita coisa só pra freqüentar o clube. Conheci gente que mudou minha vida, e também por isso mudei de cidade mas sinto falta, falta do nosso CCX, onde convivi com pessoas e escrevi várias paginas da minha vida e sei que todos tem muita história pra contar daqueles anos incríveis.
O clube foi fundado em 1990, cheguei 6 anos depois, e é essa a minha impressão sobre ele.

Mantenho contato com meus amigos do clube pela internet, mas muitos sumiram. Gostaria de encontrar todos novamente, capivaras Gens Una Sumus.

por Marcelo Santos Silva 

2 comentários para “Nostalgia”
  1. Orlando Damasceno diz:

    Precisamos de uma sede urgente para que novas gerações possam viver o que vivemos.

  2. :Z eh verdade, o clube era quase minha primeira casa heheh a segunda era a tua bad heuhue

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