O Homem “Integral”
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Sabe-se, politicamente, que toda a tentativa de se idealizar um homem com supostas características perfeitas descamba no ódio ou no racismo. Todos os regimes totalitários tiveram o seu homem “integral”. Para a então URSS, o escolhido como modelo padrão de comportamento e moral, foi justamente um enxadrista, um dos maiores jogadores da história desse jogo; o seu nome: Mikhail Botvínik, “Misha”, herói do Estado soviético.
Para que Botvínik fosse alçado à condição de modelo de homem soviético foi preciso um protetor e também ideólogo. Esse homem foi Nikolái Vasiliévitch Krilenko, Comissário do Povo, descrito como um “duro” do establishement revolucionário, um marxista-leninista puro, a quem a história tem responsabilizado por vários dos mais terríveis expurgos do estalinismo. Uma versão o evoca comendo, delicadamente, biscoitos e bebendo chá em meio a sessões de torturas nas quais tratava de “corrigir” revolucionários descarrilados. Nos seus tempos de glória Krilenko pregou uma teoria dessas que faz história. Partindo da base de que o destino da Revolução era gerar o “Homem Novo”, mais solidário, mais culto, mais inteligente e mais livre do que o produto do “capitalismo burguês”, chegou a conclusão de que o xadrez era o terreno ideal para mostrar a superioridade do “comunismo” sobre o capitalismo. O mais notável foi que Krilenko conseguiu convencer as autoridades do novo Estado proletário de que era necessário conferir ao desenvolvimento do jogo a máxima importância política, e Mikhail Botvínik foi o primeiro e mais brilhante dos produtos dessa nova concepção. Seu perfil ajustava-se perfeitamente às exigências dessa nova teoria. Além do mais, sua origem judia afastava qualquer suspeita de racismo ou nacionalismo extremo, e seus estudos de engenheiro eletrônico, culminados paralelamente às suas grandes vitórias no tabuleiro, contribuíram a dar-lhe a imagem de Homem novo.
Sua folha enxadristíca é expressiva: primeiro lugar no torneio de Moscou, 1935; segundo lugar em Moscou, 1936, e primeiro no torneio de Nottingham(torneio do qual participaram três ex-campeões mundiais e o campeão). Em 1940, sua carreira teve uma baixa momentânea, ocasionada pelo fuzilamento do seu protetor- Krilenko- acusado de ter provocado o atraso do xadrez na União Soviética. Em 1941, porém, se reabilita brilhantemente, ao ganhar com facilidade o torneio Lenigrado-Moscou.
Durante a segunda guerra, “Misha” logrou escapar(com sua esposa) do serviço militar por uma oportuna miopia. Embora fossem tempos dramáticos, Botvíník conseguiu de Molotov uma autorização especial para se dedicar três dias da semana, ao estudo do xadrez, o que demonstra, mais do que qualquer coisa, a importância que o regime dava ao xadrez.
Ao término da guerra, Botvínik, com a aquiesciência do governo soviético, propôs ao então proscrito, campeão mundial, Alekhine (colaborador dos nazistas), a disputa pelo título, que não chegou a realizar-se, devido à morte abrupta deste último. Em 1948, a FIDE(Federação Internacional de Xadrez) promoveu um torneio entre os melhores jogadores do mundo e Botvíník sagrou-se vencedor, obtendo o título de campeão mundial. Nos dez anos seguintes, seu predomínio no xadrez mundial foi indiscutível; perdeu e recuperou o título no ano conseguinte (por direito de revanche) para Smislov em 1957, e para Mikhail Tal, em 1960.
Seu poder na URSS era então considerável; seus veredictos sobre vários enxadristas encerraram praticamente dezenas de carreiras. Um deles tornou-se famoso: “que ninguém ouse macular a profundidade do jogo de xadrez com apreciações superficiais; procurem outra coisa para fazer que não o xadrez”. Certa vez o GM americano Patrick Wolf intrometeu-se numa análise em que Misha e o ex-campeão Smyslov faziam de uma partida: “eu acho que De2 é melhor…”; não pôde nem terminar a frase; Botvíník espetou-lhe: “estamos falando de xadrez sério e não de xadrez superficial”. O mestre americano, acabrunhado, retirou-se da sala.
Uma das características de “Misha”, era a de adaptar-se às mudanças do Estado soviético: foi estalinista com Stálin; antiestalinista depois do XX Congresso; reformista com Kruschev, restaurador com Brejnév e perestróico com Gorbachov. Em 1958, por exemplo, Botvíník foi incluído numa comissão de “notáveis” que deveria julgar a conduta do poeta e novelista Borís Pasternak, laureado com o prêmio nobel pela sua novela Dr Jivago. Apesar de íntimo amigo de Pasternak, Misha qualificou o escritor com os mais duros termos e contribuiu para a sua defenestração.
Em 1972, o establishement soviético do xadrez foi abalado pela vitória do norte-americano Bobby Fischer que fulminou, sucessivamente, os três maiores jogadores da URSS: Taimanov, campeão russo(6 x 0); Petrossian,ex-campeão mundial(6 x 2,5), e finalmente Spássiki. Todos os derrotados receberam represálias do regime: Taimanov perdeu o apartamento estatal que morava junto com a sua família; Petrossian foi demitido do cargo de redator de uma importante revista e Spássiki foi acusado, publicamente, por Botvíník de ter-se vendido pelos dólares do americano.
Depois de encerrar a sua vida enxadrística, Botvínik abriu uma escola de gênios do xadrez, em Moscou, da qual o maior produto foi o ex-campeão mundial, Garry Kasparov, o maior orgulho do mestre. Quando o duelo Karpov x Kasparov, em 1985, estava com o placar de 5 x 0 a favor de Karpov, Botvínik correu em socorro do seu aluno predileto: encerrou-se com Kasparov num final de semana e deu a receita que permitiu mudar o estilo de jogo de Kasparov; este revelou-se, naquele match, invencível, com três vitórias consecutivas e uma sucessão interminável de empates, o que levou a anulação do match em 1986.
O aluno retribuiu com o agradecimento da vaca empanturrada: rompeu com ele e se dedicou a criticá-lo e a vilipendiá-lo.Em 1994, durante as Olimpíadas de Xadrez, em Moscou, se opôs a que Botvínik fosse convidado: “se quer ver as partidas, pague como outro qualquer”, dissera. Ao que parece, a traição do seu aluno preferido, juntou-se com outros fatores para causar-lhe a morte na primavera de 1995, aos 84 anos. Alguém comentou no seu funeral: “Ao saber-se exilado do reino dos grandes, donde sempre ocupou um lugar de destaque, é possível que Botvínik tenha recordado do seu amigo de outrora, Borís Pasternak e também do ditado, “com quem ferro mata, a ferro morre”.
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Belo texto!!!
Realmente a genialidade de Botvinnik era mesmo fantástica. O texto traz muitos detalhes particulares de sua vida, muito interessante mesmo. Mas quem realmente teá sido o maior rival de Botvinnik?! Thal?, Smyslov?, ou outro?Quem?
Que esses artigos nunca acabem!
David Bronstein. Existem relatos, possivelmente verídicos, que ele foi forçado pelo Estado Soviético a “perder” o match, contra Botivnik.Ele fez esta denúncia em 1995.