“O que chamais de acaso…”

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Nada mais é do que a providência em ação!". Para o desconhecido Igor Ivanov, representante da Repúlblica do Uzbequistão, nas Espartaquíadas de Moscou, em 1977, o diagrama abaixo significou bem mais do que uma simples partida de xadrez, representou a sua liberdade.

Karpov

Partida de Ivanov x Karpov

Igor Ivanov

Nessa posição, o campeão mundial Karpov poderia ter empatado mediante 38…P5T; 39- T1D-T8T; 40-DxT+ -DxD; 41-TxT -D6C empate; em vez disso jogou 38… T8T + ; 39-R2T-T7T; 40-B6B-T2T; 41-D5B-T2B; 42-D6C e Karpov abandonou.

Ivanov conta, nas suas memórias, que desde muito cedo sonhava em abandonar a União Soviética. Morador em Lenigrado dividia com a família um espaço de nove metros quadrados. Havia, ainda, assinala, uma cozinha e dois banheiros para serem divididos com quinze inquilinos".

"Tudo aconteceu por acaso", conta ele. Quando eu tinha quinze anos e andava angustiado com a minha falta de perspectiva, parei por acaso, numa praça, diante de dois jogadores de xadrez, mais por inércia do que por interesse. Então um deles falou algo que, literalmente, mudou o meu destino; foram palavras prosaicas, ditas de passagem: Mikhail Seyvitich será o nosso representante no Torneio Internacional de Frankfurt. Algo estalou dentro de mim e fui tomado por um sentimento avassalador : "O xadrez poderia ser a chave para sair do país!". No entanto, meu entusiasmo amainou quando eu refleti que para ter essa permissão, eu teria que me tornar Grande Mestre, ou seja, um enxadrista de alta categoria. Naquele momento eu olhei o tabuleiro, admirado diante dos seus insondáveis enigmas; era um final de tarde e a neve tinha começado a cair".

A partir daí, no entanto, eu começei a estudar xadrez . Levava, às vezes, mais de dez horas consecutivas de estudo, de tal forma que a minha mãe (o meu pai cumpria prisão na Sibéria por pretensas atividades anticomunistas) se preocupou seriamente comigo, achando que eu estava fora do meu juízo normal.

Os primeiros triunfos importantes, eu consegui quatro anos depois; com vinte e três anos consegui o título de Mestre Internacional e com vinte e cinco o de Grande Mestre. Tinha gasto mais horas de estudo de do xadrez do que qualquer estudante na sua carreira escolar, incluindo a universidade.

"A vitória contra o campeão mundial, Karpov deu-me direito à integrar a equipe soviética que disputaria o Memorial Capablanca, em Havana. Enquanto um ex-procurador dos tempos de Stálin, Baturinsky, remetia para mim o passaporte, eu examinava, com ansiedade, as possibilidades de fuga que dependiam das escalas técnicas do vôo Moscou-Havana-Moscou. Caso as escalas fossem feitas no Marrocos, eu não poderia descer do avião. Passei , então, a se apegar à esperança de que uma dessas escalas fosse feita no aeroporto de Gander, na província de Terra-Nova, no Canadá. Sem ousar perguntar nada, com receio de que o meu passaporte fosse tirado, eu esperei. Na ida as escalas foram feitas no Marrocos e eu tive que jogar em Cuba. No retorno o avião parou em Gander! Pedi para sair um pouco e depois de alguma relutância, foi me dada à permissão. Desci em direção a área de trânsito, acompanhado de um policial soviético. Fi-lo crer que ia comprar presentes e entrei na primeira loja, distraindo-o com uma observação jocosa a uma mulher que passava. Nesse momento, dirigi-me a balconista e estendi um bilhete em que estava escrito em francês e inglês: "sou russo e peço asilo político". O policial russo, ao perceber o logro, arrastou -me, furioso, de volta para o avião. Em estado de desespero me imaginei na Sibéria, junto com o meu pai, punido como traidor da União Soviética. Quando o avião estava próximo de decolar, a policia canadense adentrou à aeronave, seguido da balconista. "Naquele instante fui instado pelos "amigos" presentes a negar o pedido de asilo. Alguns referiram-se as represálias que minha mãe iria sofrer. Entretanto, reafirmei, perante a polícia canadense, o meu pedido de asilo e fui retirado do avião, sob o olhar raivoso da polícia secreta".

Duas semanas depois Ivanov conquistou o torneio aberto de Montreal e foi acolhido pelo professor Normandeau, sua mulher Francine, seu cachorro "Lobo"e… sua filha Geneviéve, no dizer de alguns, a mulher mais bela de Montreal, na época.

A paixão foi inevitável e Ivanov  deu a Geneviéve de presente de noivado uma composição enxadrística de um poema feito pelo GM russo, Korolov. O poema e a composição seguem abaixo.

O poema chama-se "Excelsior", do poeta americano Henry Wadsworth Longfellow, autor do "Salmo da Vida" e único poeta norte-americano cujo nome figura no "Canto dos Poetas" da abadia de Westminster. Eis o poema:

"As sombras da noite caíam rápido
Quando por um vilarejo alpino passou
Um jovem que portava, em meio à neve e ao gelo,
Um pendão com a estranha divisa: Excelsior!

Em lares felizes ele via o lampejar
De acolhedoras lareiras faiscantes.
No alto, as geleiras fantasmagóricas reluziam
E de seus lábios escapou um gemido: Excelsior!

"Não arrisque o desfiladeiro", disse o velho.
"Negreja a tempestade no céu;
A torrente troante é funda e larga!"
E respondeu altissonante a voz érea: Excelsior!

"Oh pára", disse a moça, e repousa
Tua cabeça cansada neste peito!"
Uma lágrima brotou em seu olho rutilante
Mas, com um suspiro, ele ainda respondeu:
Excelsior!

Eis o problema de xadrez, baseado no poema, composto por Korolkov:

Problema de Xadrez

O jovem (Ivanov) é o peão situado na casa 2CD; o velho é o Rei branco e a moça (Geneviéve), a Dama branca. Para ganhar é preciso que o jovem ( o peão em 2CD) avance sempre. Excelsior!

1- PXP + – R4B( se RXP; 2- D3C mate; se 1…R5B;2-D3C+- R6D;3-D2B+ – R6R;4-D2D+ – R6B; 5- D3D+ – R7C e 6-DXPR)
2- PXP+ – R3D( se 2…RXP;3-D2C+ – R6R; 4-D2D+ etc.; se 2-PXP; 3- D5B+  E 4- DXP7B).
3-PXP+ – R2R( se 3…RXP;4-D2C+ -R3D;5-DXPR; se 3…PXP; 4-D3D+; se 3…R3R, 4-D3C+ – R4B;5-D3B+; se 3…R3B; 4- D2B+).
4- PXP+ – R1B(se 4…RXP; 5-D2C+; 4…PXP; 5-D4R+; …4-R2B; 5-D3C+ – R3C;6-D3C+).
5-PXP+ – R1C;6-PXC=D+ -RXD;7-D2C+ – R1C; 8- DXP e ganham.

Ivanov  e Geneviéve, por pouco, não viveram felizes para sempre. Igor Ivanov faleceu em 2005.

Ivanov era pianista e matemático. Ele venceu o Utah Open em 29 de outubro de 2005, três semanas antes de sua morte, por câncer.

Crônica reproduzida, em parte, do livro “Crônicas de Xadrez”.

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Comentários (3)

história massa, principalmente o poeminha!

ótimo,tanto a apresentação do poema como também na sua comparação com o problema.Coincidência- existe,acaso não.

gostei da historia interesente msm!!

e a representação no xadrez tbm!!

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