por Armínio Santos

O Historiador Heródoto escreveu que Xerxes, rei dos Persas, durante a batalha de Salamina contra os gregos, ao perder vários navios, durante uma tormenta, no Estreito de Dardanelos, ordenou que o mar fosse açoitado em represália pela ousadia. Antes de partir para esta batalha, um nobre solicitou ao “Grande Rei” que poupasse o seu filho mais novo para que ele pudesse ter um auxílio na velhice. O rei aparentemente concordou e no dia seguinte convidou o nobre para uma refeição no seu suntuoso palácio. Depois de observar em silêncio o nobre comer as carnes que lhe eram servidas, perguntou-lhe se estas estavam saborosas. Diante do assentimento, Xerxes levantou uma tampa aonde estava a cabeça do filho servida ao pai. O rei tornou a perguntar-lhe: a carne estava saborosa? A resposta: Sim! Distanciado no tempo e no espaço a vaidade de Xerxes e o desprezo pelo resto dos mortais foi lembrada por alguns jornalistas durante o match que Fischer travou contra Spassiki, na Islândia em 1972. O jogador americano exigira e fora atendido pelo governo da Islândia que no seu percurso até a sala do evento, pelas ruas de Reikjavik, todos os semáforos estivessem da cor verde.

Todo filho criado sem pai se torna lobo! Fischer.

Para falar de Fischer é preciso tentar separar o mito do homem e nem sempre é fácil, pois lenda e realidade se confundem na vida deste extraordinário enxadrista. Fischer sofria da Síndrome de Asperger, um transtorno de múltiplas funções do psiquismo com afetação principal na área do relacionamento interpessoal e no da comunicação. Também sofriam desta síndrome personagens famosos na história como o físico Isaac Newton, o compositor Mozart, os filósofos Sócrates e Wittgenstein, o naturalista Charles Darwin e o pintor e escultor renascentista Michelangelo. Segundo o ‘Erasmus Hall’, Fischer tinha o impressionante coeficiente intelectual de 184, superior ao de Einstein. Desde criança tratava os soviéticos como inimigos, embora a sua mãe tivesse morado 5 anos em Moscou, lá, inclusive, nascera a sua irmã. Era anti-semita, embora fosse judeu. A sua mãe era judia. Na adolescência, talvez devido a uma vida com poucos recursos financeiros, desenvolveu o seu anti-semitismo. Orgulhava-se de ter decorado o infame livro de Hitler, “Mein Kampf”. Logo depois do atentado de 11 de setembro, ligou para uma rádio nas Filipinas e proferiu um virulento discurso aprovando o ataque ao World Trade Center. Em 1992 jogou um match revanche na Iuguslávia, contra Spassiki com prêmio de U$$ 5 milhões.

Fischer durante o match patrocinado pelo genocida regime sérvio, fazendo um gesto obsceno para os jornalistas.

Sobre ele o ex-campeão mundial Botiviník, antecipando o diagnóstico da Síndrome de Asperger, observara com extrema agudeza:

“A tragédia de Fischer provavelmente tem sido o fato de lutar não só contra os seus oponentes no tabuleiro, mas também com as suas impressões irreais do mundo exterior”.

A mesma observação que Max Euwe fizera de Alekhine: “Alekhine é um rei no tabuleiro de xadrez e um peão na vida real”, podia caber para Fischer. No entanto, ao contrário de Alekhine que não tinha nenhum álibi a seu favor, Fischer sofria de sérios transtornos mentais. Pouco antes de morrer, em janeiro de 2008, arrancara todos os seus dentes: temia que a antiga KGB colocasse microfones nas suas obturações! Pressentindo a sua morte, na Islândia, solicitou que o seu enterro fosse seguido por apenas 5 pessoas.Como no episódio dos semáforos, no distante ano de 1972, ele também teve o seu pedido atendido.No começo de 1980, por exemplo, ele adquirira o costume de só sair de casa de madrugada e vestido como um mendigo para não ser reconhecido. Numa destas saídas foi confundido pela polícia com um assaltante de bancos e passou dois dias preso. Seu rol de excentricidades parecia inesgotável. Para intensificar a pressão psicológica sobre os seus adversários, juntou-se a uma seita religiosa só para não disputar partidas nos sábados e deixar os seus adversários mais tensos. O detalhe: ele comparecia aos salões dos torneios aos sábados… para jogar dominó! Era paranóico com a iluminação: os organizadores lhe cediam duas luminárias sob protesto de seus rivais soviéticos que desconfiavam que estas luminárias extras propagavam radiação! Durante o match de 1972, exigiu que a sua cadeira giratória fosse levada para a Islândia. A cadeira passou por um raio X e foi desmontada: os soviéticos desconfiavam que tinha um computador embutido na cadeira! No início da década de 60, falou que desafiaria qualquer mulher do mundo, dando-lhe a vantagem de um cavalo! Contra esta afirmação, Tal respondera: “Fischer é Fischer, mas um cavalo é um cavalo”! Ao ser perguntado se as mulheres podiam jogar bem xadrez, respondera: não, porque são incapazes de agüentarem cinco horas caladas”.

Esse falastrão! Só perderei para Mequinho se for picado por uma cobra! Sobre o jogador brasileiro Mequinho que dissera que caso Fischer perdesse para ele, não perderia a sua fama.

Em 1967, o príncipe Rainieri, de Mônaco solicitou para o torneio realizado no principado, dois mestres americanos com uma condição: um deles tinha que ser Fischer! Dois anos mais tarde eles tornaram a convidar dois mestres americanos com uma condição: nenhum deles podia ser Fischer! Quando o apresentador televisivo, Dick Cavalet lhe perguntou na televisão qual era a sua maior satisfação, ele respondeu com sinceridade: “Destruir o ego do meu adversário”! E completou: Gosto de ver que eles têm medo! Porém Byrne que o conhecia bem, afirmava que ele também temia o fracasso e por isso não jogou o match de 1975 contra Karpov.

Completa concentração.

Soy un especialista. Juego al ajedrez. Eso es una cosa seria. Otra cosa no la sé, pero todo cuanto sé, lo domino a fondo. (…) Lo que necesito es mucho descanso y una buena iluminación. En especial, no soporto ningún ruido, pues me distraen en mi trabajo profesional de calcular y combinar. (…) Soy meramente un hombre, pero un hombre extraordinario. Mi mundo es el tablero blanco y negro del ajedrez. En mis jugadas hay que ver movimiento y al mismo tiempo arte; quien no consigue verlo me da lástima.” Declaraciones de Fischer para la revista yugoslava “Start”, en agosto de 1971

Em 13 de julho de 2004, Fischer depois de uma longa ausência em público, reapareceu no aeroporto internacional de Narita, no Japão, aonde pretendia embarcar para as Filipinas com um passaporte que o governo americano havia cancelado, devido a sua participação em 1992, no match contra Spassiki, na Iuguslávia. As autoridades japonesas o prenderam por oito meses, ao tempo que o governo dos Estados Unidos emitiu uma petição solicitando a sua extradição.Em 15 de dezembro deste mesmo ano, novamente, os islandeses aceitaram dar asilo político a Fischer para assim ajudar-lhe a escapar do pedido de extradição dos Estados Unidos. O seu repatriamento para Reykjavik foi efetuado a despeito dos protestos dos Estados Unidos contra o governo islandês. Em 9 de março de 2005 recebeu um passaporte islandês com os cumprimentos do governo pelo seu aniversário de 62 anos!Em 21 de março de 2005, o parlamento islandês, aprovou conceder cidadania islandesa a Fischer, por 40 votos com duas abstenções! Foi então posto em liberdade, qualificando George W.Bush de criminoso e o primeiro ministro japonês, Koizumi, de “títere de Bush”. Foi aclamado na sua chegada a Islândia como herói por uma multidão de seguidores! Em 2005, Fischer encontra, por acaso, com Anand, numa lanchonete em Reykjavik e conversam sobre xadrez, Num determinado momento ele saca do bolso um tabuleiro e mostra a Anand uma partida que ganhara contra o programa de computador Corus. Anand comentara depois que a partida fora brilhante, mas as idéias estavam estagnadas no ano de 1972. Fischer ignorava as novas idéias surgidas com os computadores modernos.

Observado por Tal.

En unas simultáneas, Fischer ganó la dama a su rival, y éste volvió a ponerla en el tablero al irse el americano. Continuó el juego normalmente y el hombre se vanagloriaba ante los espectadores de que el genio no se había dado cuenta. Siete jugadas más tarde, Fischer volvió a ganarle la dama, y esta vez se la metió en el bolsillo y se la llevó, sin mediar palabra.

Fischer nasceu em 1943, filho de Regina Wender e Hans-Gerhardt Fischer; possivelmente o seu verdadeiro pai biológico foi o emigrado húngaro Paul Félix. Seus pais se divorciaram quando ele tinha dois anos e ele cresceu com sua mãe e a sua irmã Joan, nascida em Moscou.Regina Fischer recebera uma bolsa do governo soviético para estudar medicina entre os anos de 1933 e 1938, terminando o curso com louvor. Falava fluentemente cinco idiomas.Regina, porém, não pode trabalhar nos Estados Unidos como médica, pois ali não se reconhecia os títulos de medicina obtidos em outros países.Em 1970, ela fez especialização em medicina na então RDA, Alemanha Federal. Devido a esta ligação da sua mãe com o bloco comunista, o FBI passou a vigiar a família de Fischer desde a década de 40. Os documentos referentes a isso somente seriam liberados, com inúmeras tarjas negras sobre o texto, em 2002.Fischer aprendeu a jogar sozinho ao ler as instruções de um jogo que recebera de presente da sua irmã. O seu estímulo para o xadrez, porém, como acontecera no passado com a visita de Pilsburry, respectivamente a Moscou e Havana, e que influenciara os garotos Alekhine e Capablanca, deu-se com uma visita que o então campeão mundial Smyslov fez aos Estados Unidos em 1954.Com a idade de 7 anos começou a freqüentar o clube de xadrez do Brooklyn. Em 14 de janeiro de 1951, com oito anos de idade, a sua mãe recebera uma carta do redator da seção Helms que pedia para levar o seu filho no dia seguinte à biblioteca, aonde um certo Dr.Pavey iria jogar umas simultâneas. Fischer se apresentou no dia seguinte para jogar, da mesma forma que acontecera com o menino Mikhail Tal quando o campeão Botivinik esteve em Riga para jogar uma simultânea. Tal chegou ao hotel aonde Botivinik estava hospedado com um tabuleiro nas mãos e disse: quero jogar com Mikhail Moisevich. Disseram-lhe que Botivinik estava dormindo! Aos 16 anos abandonou a escola para se dedicar em tempo integral ao xadrez. Ele era um aluno completamente desinteressado.Frank Brady mencionou que uma vez encontrara um exercício de matemática, datado de 16 de outubro de 1956, com a observação: insuficiente. De acordo com D.Bjelica, Fischer,apesar de ser muito inteligente não mostrava nenhum interesse pelos estudos.As vezes sacava um tabuleiro de bolso, nas aulas e analisava algumas partidas. Quando o seu professor se dava conta, dizia: Fischer, não posso obrigá-lo a que escutes a lição e nem proibi-lo de jogar xadrez, porém, por favor, jogue sem o tabuleiro. Fischer então abandonava o tabuleiro e sentava-se tranqüilo e todos os professores e alunos sabiam que ele estava analisando as partidas mentalmente. Certa ocasião falou: “os professores são ignorantes, provavelmente porque a maioria deles não joga xadrez”! Não obstante, ele tinha uma habilidade muito grande com idiomas. Era o melhor aluno de espanhol e aprendeu russo devido não só a influência da mãe que vivera cinco anos em Moscou, mas também para aprender a teoria do xadrez. Ele disse: “Eu estudei russo ouvindo a rádio Moscou e através do conhecimento do russo seguia as partidas de Botivinik, Bronstein, Taimanov, Tal e Spassiki. Antes de jogar com eles eu já ouvira os seus estilos”! Fischer falava também, fluentemente o servo-croata. Quase não se interessava por nada que não fosse xadrez. Robert Byrne ouvira dele, em certa ocasião, que a melhor coleção que existia, fora o Informador, era a coleção do Tarzan! Desta coleção, gostava, particularmente, do “Regresso de Tarzan”. D.Bjelica conta que o acompanhou, em Sarajavejo, ao lugar histórico aonde Gavrilo Princip disparou contra Francisco Ferdinand, em 1914, episódio tido como o estopim da primeira guerra mundial. Quando Bjelica acompanhando e explicando os passos de Gavrilo chegou diante da chamada “Ponte do Princip”, no local aonde ocorreram os tiros, Fischer, subitamente, abriu um livro de xadrez e disse: traduz o que diz aqui: as negras tomam a dama em b6? No dia seguinte fora convidado para uma recepção, porém disse para o seu acompanhante: recuse e vá atrás de todos os boletins do campeonato yuguslavo aonde haja jogado Gligoric!

El punto fuerte de Fischer es su versatilidad. En su estilo se aprecia una constante búsqueda de la iniciativa y ‘respeto por el material’, armoniosamente combinados. Puede sacrificar material por ataque, pero también puede aceptar un sacrificio y asumir una defensa difícil… Fischer ha dominado el método psicológico de preparación, eligiendo de antemano la modalidad de combate.” (Viktor Korchnoi)

Em 1956 a sua mãe conseguiu que John W. Collins, professor de Robert Byrne e William Lombardy, aceitasse Fischer como discípulo. Sua ascensão foi muito rápida.Com treze anos participou do “Rosenwald Memorial” e a sua partida contra Donald Byrne foi considerada por muitos como a melhor partida do século XX.

Partida Fischer x Byrne - 1956

Esta partida fez a fama de Fischer. Averbach após analisar a partida fez o seguinte comentário: Tras haber visto la partida, quedé convencido de que el niño tenía un talento verdaderamente diabólico” (Yuri Averbakh). Kasparov, em My Great Predecessors Vol IV, assinala que o crescimento de Fischer se deveu nesse momento ao treinador Jack Collins. No entanto, Kasparov credita ao Collins apenas parte do progresso do jovem Fischer. A outra parte se deveu, de acordo com Kasparov, a leitura de praticamente todos os livros de xadrez, de alto nível, disponíveis no mercado. “Bobby absorveu mais livros de xadrez do que qualquer um, em qualquer tempo”! Kasparov. Collins admitiu que a sua contribuição para a formação de Fischer, foi reduzida. Escreveu: “Ele foi geneticamente programado para jogar xadrez! Ele conhece antes que eu explique o que é! Acrescentou ainda: Para Bobby Fischer, eu posso usar as mesmas palavras que Beethoven usou para definir a música de Schubert: “Aprendeu diretamente de Deus”!!

Saia de cima dos trilhos imediatamente! Regina, mãe de Fischer, apavorada ao ver um trem que se aproximava enquanto o jovem reproduzia sentado nos trilhos uma partida de xadrez, no seu tabuleiro de bolso!

Em 1957 obteve o título de campeão dos Estados Unidos. Reshevsky lhe disse na ocasião: “Todos que jogaram contra ti, jogaram muito mal, tens tido muita sorte”! Este campeonato tinha um caráter zonal para a FIDE e este fato abriu a carreira internacional para Fischer. Com a idade de 15 anos obteve o título de Grande Mestre ao ocupar a quinta colocação no torneio Internacional de Portoroz se tornando o enxadrista mais jovem a obter este título até aquele momento. Esta colocação deu-lhe também o direito de disputar o torneio de candidatos para o título de campeão mundial. Em 1958, através de um acordo entre a Federação Russa de xadrez e a Federação Americana, acertou-se dois matchs treinamento entre Fischer e o então campeão mundial júnior, Spassiki e também contra o campeão moscovita Vasyukov. Na chegada a Moscou, Fischer declara subitamente que não quer jogar com nenhum dos dois jogadores e sim com o campeão mundial Botivinik! Este recebeu o convite com um sorriso e cortesamente recusou. Em Moscou Fischer freqüentou o Central Chess Club onde por duas semanas comparecia sempre pela manhã. Para as partidas “blitz”, o clube convidou Bronstein e Petrossian. No relâmpago, Bronstein adaptou-se rapidamente ao então estilo de Fischer e ganhou com um grande escore. Ao que parece, Fischer não digeriu bem esta derrota e num restaurante local, reclamou de um cabelo na comida e disse algo que o intérprete entendeu como: “os russos são porcos”. A tradução foi passada para os seus superiores e ele recebeu uma diretiva para deixar Moscou. Fischer saiu de Moscou com grande ressentimento dos jogadores soviéticos, a exceção de Petrossian, por não ter recebido qualquer atenção dos demais jogadores. Ele tinha 15 anos e nunca esqueceu esta humilhação.O ressentimento era uma característica marcante em Fischer. Em Portoroz, Fischer travou a primeira grande batalha com o bloco soviético. A sua primeira partida, porém, foi contra Bent Larsen. (ver partida), na defesa dragão da siciliana. Poucas vezes um grande mestre recebeu uma derrota tão contundente. O escore de Fischer na dragão, só comportou uma única derrota em toda a sua carreira. Após o jogo, Larsen explicou que evitou uma linha de empate no lance 15 porque estava jogando para vencer! Contra Gligoric ele plantou uma novidade na defesa siciliana e obteve um empate depois de tentar um forte ataque. Em Portoroz ele tirou quinto lugar . No torneio de candidadtos que se seguiu ele obteve a sexta colocação. Em Zurique, 1959 ele enfrentou Paul Keres, numa partida memorável. Nesta partida, destacada por Kasparov em Mis Geniales Predecesores Volumen 4″, existe um marco histórico: Fischer torna-se um sério competidor contra os jogadores soviéticos. “Nesta partida fascinante no qual, Fischer seguindo as recomendações de Alekhine que declarara que a partida de xadrez é ganha três vezes: na abertura, no meio jogo e no final, supera Keres, um dos maiores conhecedores da abertura Rui López, amplamente nas três fases do jogo, terminando o torneio na terceira/quarta colocação. Fischer x Keres

Neste torneio Tal fez a seguinte observação sobre Fischer: é incrível como o padrão deste jovem jogador de dezesseis anos melhora a cada jogo. Fischer é um jogador perigoso e que não concede empate fácil a nenhum adversário”! Na partida de Fischer contra Gideon Barcza, Tal comentou:

“A Fischer no le gustaban las tablas fáciles y luchaba hasta que el material desaparecía por completo. En el fuerte torneo de Zurich 1959, contra el participante más veterano, el gran maestro húngaro Gideon Barcza, el joven Fischer de 16 años no tenía ventaja, pero al no contentarse con las tablas, la partida se prolongó hasta la jugada 103. Se aplazó en tres ocasiones, los jugadores cubrieron dos planillas, pero incluso cuando sólo quedaban los reyes sobre el tablero, ¡Fischer realizó dos jugadas más! ¡Tablas! Anonadado por un asalto tan fanático, Barcza apenas podía levantarse de la silla, pero Fischer dijo, como si nada hubiera sucedido: ‘Echemos un vistazo desde la primera jugada. ¡Seguro que en algún momento podía haber jugado mejor!’ Entonces, Barcza le imploró: ‘Mira, tengo mujer e hijos. ¿Quién los alimentará si muero antes de tiempo?’”.

Antes do Torneio de Candidatos de 1959, um rico fabricante de móveis de Manhatan propôs financiar Fischer e disse para este: “Quando você der uma entrevista diga que não poderia vencer o torneio sem a minha ajuda”! Eu não posso fazer isto, foi a resposta. Se venço um torneio venço pela minha própria capacidade!

No Torneio de Candidadtos realizado em outubro de 1959, em três cidades da Iuguslávia: Bled, Zagreb e Belgrado, os oito competidores tinham de jogar 28 partidas cada.Os favoritos eram Tal, Keres, Smylov e Petrossian. Na opinião de Tal, Gligoric deveria ser incluído entre os favoritos, mas sobre Fischer fora categórico: Ele ainda não está maduro para jogar na elite do xadrez mundial”! Durante uma das sessões, Tal se traiu ao dar um autográfo, se equivocou e escreveu Fischer, quando notou o erro falou: “a forma pelo qual ganhei dele me dá o direito de assinar o seu nome”! Ele poderia ter acrescentado também que este seria o primeiro encontro a valer, de Fischer, com a nata do xadrez. Novamente Fischer enfrentou Keres. 1×0. Na roda seguinte, bateu Gligoric na dragão, com o mesmo sacrifício que fizera contra Larsen(26-Txh5!) e depois Benko. Neste ponto, Kasparov faz o seguinte comentário: “Uma rápida ascensão no xadrez, gera um número de problemas. Um deles é a quantidade e qualidade de conhecimento que é requerido para um jovem talento ser capaz de competir com sucesso num supertorneio. Na minha época eu fui bastante ajudado por treinadores como Alexander Nikitin e Alexander Shakarov e também consultávamos Botivinik. Mas Fischer trabalhava praticamente só. Em todo tempo o seu repertório era ainda muito restringido e cada participante deste torneio na Iuguslávia tentava explorar esta fraqueza. Neste torneio Fischer, embora tenha tirado em sexto lugar, lutou com toda a sua força e em momento nenhum teve o seu espírito quebrado. Foi aqui que Botivinik analisou o seu jogo e falou que Fischer tinha um brilhante talento. Botivinik disse ainda que Fischer estava ajustado à escola soviética de xadrez no qual Tschigorin fora o fundador e estava certo que Fischer teria um grande futuro. A inclusão de Fischer à escola soviética de xadrez foi a única distinção feita a um jogador ocidental por Botivinik. Curiosamente, a perda do título mundial de 1960 para Tal, irritou Fischer.

No Torneio Internacional de Mar Del Plata, em abril de 1959, Fischer tem a sua primeira vitória num evento desta natureza. Após perder na segunda rodada para Spassiki, Fischer pontua 13,5 de 15, seguido de Bronstein com 11,5.

Em 1960 ganha o campeonato americano e em 1961 tem um dos encontros mais curiosos do xadrez, num match com outro prodígio: Samuel Reshevsky. Quando o magazine Chess Life perguntou aos grandes mestres Tal, Petrossian, Larsen e Gligoric sobre o desenlace deste match, não houve ninguém que apostasse em Fischer. Considera-se que caso não houvesse um grave incidente durante este match, a previsão dos mestres poderia se revelar correta. Naquele momento (1961), Fischer não estaria ainda à altura de Reshevsky. A importância deste match para Fischer foi muito grande, pois ele incluiu a segunda, a quinta e a décima-primeira partidas no seu livro clássico “My 60 Memorables Games”.

Match Fischer Versus Reshevsky – 1961

A primeira partida foi ganha por Reshevskyy, na Defesa Índia do rei – Ver partida

Fischer dá o troco na segunda partida, na Defesa Siciliana(Flanqueto acelerado) – Ver partida

Fischer comporta-se como um selvagem quando se sente ameaçado. O’Kelly

Segue-se mais dois empates e chega-se a famosa quinta partida, defesa Semi-Tarrasch, reproduzida por Fischer no seu livro “60 Memorables Games”. Ver Partida. No prefácio desta partida, no livro de Fischer, consta: Esta é provavelmente a mais excitante partida do match. Pura tática predomina por dez movimentos(19-29). Reshevsky emerge com vantagem e força Fischer jogar por um empate. Mas no entanto, se vê pressionado pelo tempo e joga uma linha agressiva, refutada por Fischer que retoma a vantagem. De acordo com Kasparov, chega-se ao ponto de inflexão no lance 20 quando Reshevsky joga 20-De3. Kasparov pontua, citando Dvoretsky, o lance 20-Df3 com vantagem para Reshevsky. Este joga de forma brilhante, com dois lances de exclamações: 24-Be4! e 28-a4! E torna a exclamar no lance 30-Tec1!Para se confundir no lance 33-Te2 ?! No entanto, deixa escapar a vitória no lance 36-Tf2? Quando poderia ganhar, de acordo com Dvoretsky, com o 36-Tb4! A interrogação no adiamento com o lance 40-Tc6? Sepulta de vez as chances de Reshevsky. Após esta derrota, um empate na sexta partida e Reshevsky ganha a sétima, na defesa Nimzoíndia – Ver partida.

O match estava empatado em 5,5 pontos quando houve o incidente na décima –segunda partida. Reshevsky por ser judeu ortodoxo não jogava aos sábados. Foi decidido que o jogo recomeçaria no domingo as 13:30. No entanto a senhora Piatigorsky, organizadora do match e esposa do famoso violoncelista Grigory Piatigorsky, queria assistir a apresentação do marido à noite e marcou o jogo para às 11 h da manhã. Fischer acordava sempre por volta das 14h. A resposta foi: ”Senhora, eu não jogo neste horário”. Na hora marcada, após decorrer 1 hora no relógio, sem a presença de Fischer, Reshevsky foi declarado vencedor.Ato contínuo Fischer abandonou o match e Reshevsky exigiu a soma de U$ 4500 destinado ao vencedor. Fischer considerou a decisão ilegal e ameaçou abortar o match. A Federação americana deu ganho de causa a Reshevsky e Fischer contratou um advogado para entrar com uma causa na Suprema Corte! Um outro episódio deste confuso match se deu entre as preferências de Reshevsky pelo ar condicionado na sala dos jogos e de Fischer pelo ventilador. O juiz decidiu que a cada turno de jogo se alternasse o ventilador e o ar condicionado. Por conta destes incidentes os dois jogadores não trocaram nenhuma palavra. Em 1963, Jacqueline Piatigorsky convidou 8 grandes-mestres para jogar a Copa Piatigorsky. Fischer recebeu o convite e condicionou a sua participação ao pagamento de U$2000 que ele alegara ter perdido no match contra Reshevsky! Esta foi a razão pela qual o torneio foi realizado sem a sua participação. Fischer, em razão deste match, desferiu ataques virulentos de anti-semitismo contra Reshevsky, esquecendo-se que ele mesmo era judeu. Como a Federação americana tomou o lado de Resehevsky, Fischer concluiu que estava em marcha uma conspiração da Federação, dos Piatigorsky, da imprensa, contra ele pelos descendentes dos Rotchilds. Kasparov cita este triste episódio, no seu livro sobre Fischer e discute se o anti-semitismo de Fischer foi desencadeado por este evento, concluindo que não:desde a adolescência Fischer já emitia discursos racistas contra judeus,homossexuais, comunistas e o seu anti-semitismo foi aumentando com a idade. “Reshevsky contou-me que durante torneio Interzonal em Mallorca, viu Fischer com um livro e perguntou-lhe: o que está lendo? A resposta: “um livro muito interessante: Mein Kampf, de Hitler”. Kasparov. Ao ser perguntado mais tarde sobre os dez maiores enxadristas da história, colocou Reshevsky na lista.

Em Bled, ainda em 1961, ele obteve a primeira vitória contra Tal, depois de um escore desfavorável de 4-0. Ver partida. Foi neste jogo que Tal fez a famosa observação: “É difícil jogar contra a teoria de Einstein”!

Em 1962, em Curaçao, Fischer acertadamente rompeu com o sistema de competição para o título mundial: “É impossível jogar com os grandes mestres soviéticos em igualdade de condições! O sistema de competição imposto pela Federação Soviética de Xadrez, garante que o campeão do mundo seja sempre um soviético, pois só eles podem ganhar o torneio prévio. No que me diz respeito as coisas podem seguir assim. “Nunca mais jogarei nestes torneios”. Fischer. Falou mais ainda: “ Em Curaçao os jogadores soviéticos fizeram um acordo secreto. Eles empatavam previamente e também deliberavam entre si, enquanto jogavam”. Fischer apontou diversas partidas no qual houve empate e mostrou que muitas delas podiam ser ganhas por um dos lados. Acusou Korchnoi, Petrossian, Geller e Keres de combinar partidas. No mês de agosto de 1962, Fischer publicou um artigo na “Sports Illustrated” com o título: “How the russians fixed world chess” (“Como os russos fraudam o xadrez mundial”). Fischer eximiu Tal da acusação. Em Curaçao, Tal abandonou o torneio devido ao seu problema nos rins e Fischer o visitou no hospital. Averbakh em entrevista para a Schaaknieuws , citou outra conspiração: desta vez para prejudicar Keres. Na versão de Averbach “os russos” não queriam Keres como desafiante do campeão, porque era um estoniano, nem Geller, porque era um ucraniano de origem judaica – por consequência o vencedor, escolhido nos bastidores, fora Petrosian. O problema da versão de Averbach era que as duas derrotas que impedira Keres de conseguir o título fora justamente contra Fischer e Benko, norte-americanos. A resposta de Averbach fora que a delegação soviética recebera a derrota de Keres por Benko, com alívio. A organização do evento recebeu ainda uma solicitação de Fischer pedindo a expulsão de Benko do torneio. A alegação de Fischer era que Benko tinha invadido o seu quarto no meio da noite pedindo-lhe que cedesse o seu analista Artur Bisguier para analisar a partida suspensa contra Petrossian. Fischer, então com 19 anos, mas revelando maturidade, negou categoricamente e segundo ele foi xingado e quase agredido por Benko. A sua justificativa, no entanto foi muito lógica: Benko é norte-americano, mas é meu adversário neste torneio!

Bronstein já indicara que as observações de Fischer tinham fundamento e revelou que ele mesmo fora impedido de obter o título mundial jogando contra Botivinik, pelo establishment soviético. No final dos anos quarenta, o jovem Bronstein era considerado o melhor jogador do mundo. Em 1951, no duelo com Botivinik pelo Campeonato do Mundo, estava na liderança, quando, faltando pouco para terminar, perdeu a famosa partida 23, que daria lugar a rumores e suspeitas sobre conspirações. Em 1960 quando Fischer perdeu para Spassiki e assumiu um ar choroso, Bronstein lhe disse: Ouve”, “eles me forçaram a perder um encontro inteiro contra Botivinik e não chorei”(Chessbase noticias, 6/12/2006). Depois da denúncia de Fischer, A FIDE, sob pressão norte-americana, acabou com o Torneio de Candidatos, substituindo-o por matches entre os pretendentes ao título.

“Fischer es el mejor ajedrecista de todos los tiempos” Kasparov em “Mis Geniales Predecesores Volumen 4″.

9 comentários para “Robert James Fischer - Parte 1”
  1. Orlando Damasceno diz:

    Belo artigo! Já estou ansioso pela segunda parte.
    Armínio, não fique tanto tempo sem escrever.

  2. Concordo com Orlando, o artigo está realmente muito bom. Tinha várias passagens da vida de Fischer que desconhecia. Síndrome de Asperger!?

  3. Já estava sentindo falta do belissímos artigos do nosso amigo Armínio.
    Sensacional, e esperemos pela 2º parte!!!

  4. remulo aguiar diz:

    não tem como o texto for com audio não???
    isso não vou conseguir ler não…toda hora que olho me da preguiça.
    Eu aposto que ninguem leu esse texto todo.
    se leu, ta com ele na cabeça ateh agora.

  5. O texto é muito bom! E ainda apresenta as mais relevantes partidas destes personagens da história não só do xadrez. Mas, principalmente, dêste.

  6. Orlando Damasceno diz:

    Vai capivara preguiçoso. Não lê um texto desse tamanho como vai ler um livro de xadrez?

  7. remulo aguiar diz:

    vc esta certo…eu não leio livro de xadrez tbem por isso…eu vejo partidas no click…vai dizer que vc tbem não??? nunca ouvi vc falar em livro capivara….kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    flwwwwwww

  8. É por isso que eu não paro de jogar xadrez, tanto o jogo em si como as histórias são surpreendentemente fascinantes.

  9. Que texto incrível! E mesmo grande, não se torna cansativo, pois é interessante! Aguardamos a continuação…

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