Ser ou não ser?
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O filme “As Filhas de Marvin” com Meryl Streep e Diane Keaton coloca um problema interessante para o espectador: o que é, na verdade, desperdiçar a vida? O personagem de Diane Keaton arquiva os seus sonhos e projetos de vida para cuidar do pai, inválido numa cama e, paulatinamente, gasta a sua beleza a medida que “sacrifica-se” pelo genitor. Como é filme e não vida real, o espectador termina sendo ofuscado pelo brilho interior da personagem.
Num outro extremo, o livro Fausto, de Goethe, também coloca um problema parecido de natureza diferente: não seria jogar a vida fora, trocar a alma pelos prazeres do mundo? O personagem do livro, mediante um acordo com Mefistófeles, vende a sua alma em troca das benesses do mundo. Diuturnamente, a televisão está nos mostrando esse tipo de personagem “bem sucedido” e que não hesita em passar por cima de pessoas ou instituições, no desejo doentio de aumentar sempre o seu poder, riqueza e “glória”.
A diferença nos dois exemplos citados pode residir que, no primeiro, a personagem do filme,embora possa parecer fracassada é, na realidade, vencedora. O segundo exemplo mostra o contrário.
Diversas opções de vida com as suas, muitas vezes, trágicas conseqüências podem ser encontradas no mundo do xadrez.
Certamente, o americano Paul Morphy, tido como um dos maiores gênios do jogo não poderia imaginar que a sua opção pelo xadrez seria a sua ruína. Após percorrer a Europa durante os anos de 1858-60, vencendo todos os campeões europeus e cobrindo-se de glória diante de seus compatriotas, foi repelido pela sua noiva, sob a alegação que não poderia casar-se com um jogador profissional de xadrez; devido a essa recusa, Morphy entrou em profunda depressão, morrendo poucos anos depois, perturbado mentalmente. Um contemporâneo de Morphy escreveu sobre ele o seguinte comentário: “que coisa estranha é a natureza do ser humano, que faz com que um jogador de xadrez, que deveria privilegiar a razão ao invés da emoção, sucumba diante da recusa de uma mulher esnobe, afetada e insensível e que refletia o seu conceito de vida, apenas, através dos ecos da sociedade preconceituosa de Nova Orleans. Como é grande o poder da mulher sobre o homem!”.
Para Wilhelm Steinitz, campeão mundial em 1883, a opção pelo xadrez como meio de vida, foi também a da morte pela fome, em 1900 na ilha de Ward. Primeiro ele conheceu a fama e depois, vítima da efemeridade da glória, teve que lutar, precariamente, pela sobrevivência, após perder o seu título para Emanuel Lasker, em 1894. Em 1898, quando participava de um torneio, um admirador admoestou-lhe, falando que ele já adquirira muita glória podendo descansar e deixá-la para os jogadores mais jovens; “a glória eu posso deixar, mas o dinheiro do prêmio não!”- foi a resposta.
Carl Scheletcher, o maior jogador alemão do século XX, trocou a vida “monótona” de pequeno sitiante, no interior da Alemanha, pela busca da fama em Berlim. Quase a obteve; depois de conseguir o direito de desafiar o campeão mundial, Emanuel Lasker, numa série de dez partidas. No último jogo, o empate lhe daria o título e ele claramente superior recusou, por arrogância, a linha de empate e terminou perdendo a partida. Como conseqüência dessa derrota, Scheletcher não conseguiu reagir e, bem depois, viu-se em estado de mendicância sendo forçado a alistar-se como soldado, na primeira guerra mundial, onde foi morto no primeiro combate.
Para o russo Alexander Alekhine, campeão mundial entre 1927 e 1946, a opção foi negociar a alma com os nazistas. Abrigado em Berlim nos anos de 1939-44, escreveu vários artigos antisemitas onde, repulsivamente, dizia que os judeus não eram talhados para o xadrez; percebendo depois que caso continuasse a derrotar os oficiais nazistas, em torneios, correria perigo de vida, abdicou de sua arte, deixando-os prevalecer sobre o seu jogo. Em 1944, completamente humilhado pelos seus anfitriões, foi-lhe, finalmente, permitida a sua saída da Alemanha, apenas, com uma mala de roupas.
É possível que a verdadeira opção de vida que faça, realmente, diferença seja a opção ética; com as restantes talvez seja mais sensato calar-nos e como no poema de Raimundo Correa, Mal Secreto, convir que:
Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo que punge, tudo que devora
O coração, no rosto se estampasse;Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face;
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!
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